A Dúvida (e o Fantástico) em Biofobia

Considero difícil a tarefa de resenhar uma obra de que gosto muito. Li Biofobia (editora Record) numa tarde e parei apenas para absorver o capítulo clímax que é de uma narratividade potente e poética. Não é apenas as imagens e a ação que te prendem à narrativa, é o modo como Nazarian te envolve com seu humor ácido e com os pensamentos desse roqueiro fracassado, que também é um fracasso de pessoa, mas que não deixa de ser cativante em todo seu egoísmo e atitudes de adolescente. André é um “emo velho”, palavras dele próprio. Vive do sucesso do passado, dos amores do passado e faz pouco para tentar se reerguer. Com o suicídio de sua mãe escritora, André precisa passar uns dias na casa da mãe, no meio do mato, para resolver pendências burocráticas, distribuir os bens materiais e, quem sabe, pensar na própria vida.

Não há uma diferença clara ente os pensamentos de André e a ação narrada por um narrador que quase desaparece; o que é importante para a perspectiva dúbia do protagonista e de todo o livro. Não é um relato em primeira pessoa; mesmo quando estamos dentro da mente do protagonista o narrador usa pretérito mais que perfeito, e, bom, quem pensa em pretérito mais que perfeito? Um outro momento que você percebe que há um narrador é na cena depois do clímax, quando o leitor passeia pela casa agora vazia, e revisita a lareira, a televisão, a parede infiltrada, o banheiro e vai até o quarto da mãe. Seria o espírito ou a memória de André, já longe dali? Ou um outro espírito, o da mata? Ou a câmera do nosso filme particular?

Imerso em sua crise de meia idade, o leitor pode até sentir um pouco de compaixão de André em algum momento, mas as coisas ficam mais interessantes quando o leitor não sente pena do protagonista. É aí que fica divertido. Num determinado momento, André queima livros enquanto ele e um amigo cheiram cocaína (disposta na capa de Só o Pó, do Marcelino Freire), queimam Feriado de Mim Mesmo do próprio autor e num momento que eu particularmente ri muito, o protagonista queima a antologia Granta: Os melhores jovens autores brasileiros. Nazarian comentou uma vez em seu blog que ficou muito rancoroso de não ter participado da Granta, então julguei ser o seu momento de exorcismo.

Aliás, o único livro que o protagonista se interessa da vasta coleção de sua falecida mãe é O Exorcista, uma das inúmeras referências ao terror que o livro trás. Umas das cenas mais emblemáticas do cinema é reproduzida no banheiro e você ouve a trilha sonora de Psicose quase que instantaneamente enquanto lê. O próprio André incorpora em pensamentos seu repertório de filmes de terror num movimento muito bacana de auto-zombaria que confunde o leitor quando as coisas vão ficando cada vez mais esquisitas: galhos de árvores crescendo da noite para o dia, televisão velha sintonizando sozinha uma entrevista da mãe, o cachorro que desaparece, uma parede com infiltração em forma de um corpo. Todas essas esquisitices podem ter uma explicação lógica, ou podem ser apenas fruto de alucinações regadas às drogas, à claustrofobia e à crise de meia-idade do protagonista, ou ainda pode ser que o mato em volta esteja “vivo” e quer se apoderar da casa. Esta dúvida é justamente o movimento do fantástico. Todorov diz: “O fantástico é a vacilação experimentada por um ser que não conhece mais que as leis naturais, frente a um acontecimento aparentemente sobrenatural.” e que “O fantástico implica pois uma integração do leitor com o mundo dos personagens; define-se pela percepção ambígua que o próprio leitor tem dos acontecimentos relatados.”¹. Por isso é ainda mais interessante que mesmo ao final, o leitor não tenha certeza se acredita na loucura, no sobrenatural ou no insólito. A dúvida é benéfica e intencional.Santiago Nazarian é um dos autores que melhor abraça o trash e o fantástico em sua obra. Mesclando a seriedade do estudo de personagem com referências ao terror, tratando o gênero com a seriedade que merece, meio que não se levando à sério e sendo divertido por isso.

Uma citação:

O que fazer com tudo aquilo? O que fazer com o cadáver de uma casa, uma vida, a mãe morta? Enterro ou cremação? Criogenia ou canibalismo? Incêndio e demolição. Cortar seu corpo em pedaços e servir ao cachorro. Entregar peça por peça aos parentes e amigos — distribuir os livros, os vestidos. Vender tudo. Derrubar a casa. Instalar-se lá e tentar começar uma nova vida, recomeçar a vida, retomar a vida da mãe, adotar sua identidade, seus vestidos ou seu cenário, construir um personagem. Ele não era capaz.

¹ TODOROV, Tzvetan. Introdução à Literatura Fantástica. São Paulo: Perspectiva, 2004.

Você pode obter uma cópia de Biofobia aqui. A obra é gratuita para Kindle Unlimited.

This article was updated on 11 Agosto 2020

Juliet Rodrigues

Reticências, interrogações e gestos afobados