A perda de si (Antonin Artaud)

Resenhas Fev 09, 2020

Publicado em 2017 pela editora Rocco, A perda de si reúne cartas de Antonin Artaud selecionadas e traduzidas por Ana Kiffer, estudiosa do artista. A minuciosa introdução dá luz ao método de tradução da obra, assim como ao momento em que as cartas foram escritas; o livro também conta com notas de rodapé que situam o leitor a respeito da época e da temática das cartas. Antonin Artaud, dramaturgo e poeta surrealista francês, “foi sempre um autor bastante comentado, seu nome até certo ponto ainda hoje provoca algum tipo de barulho, mas (…) [ele] é um escritor muito pouco lido.”, diz um trecho da introdução.

Eu tive meu primeiro contato direto com Antonin Artaud por esta mesma obra, cuja temática me interessa imensamente. Eu conhecia Artaud de nome, sabia vagamente alguma coisa de sua biografia, e ter começado justamente por estas cartas me deixou um pouco perdida e meio chocada. Perdida porque eu não tinha tido contato direto com a obra do autor antes, e chocada porque sinto que, ao ler esta coletânea, eu testemunhei a perda de sanidade de Artaud.

As cartas reunidas são datadas entre os anos 1923 e 1948. Temos nas primeiras correspondências, para o então editor da Nouvelle Revue Française (editora Gallimard) Jacques Rivière, uma extensa descrição do que autor chama de uma “assustadora doença do espírito”. Artaud dá detalhes de como sua mente lhe trai com frequência e o efeito disso em sua obra.

Toda a correspondência da coletânea mostra a luta constante de Artaud com uma perda de si próprio, seja nas vezes em que pede láudano para Alexandra Pecker, seja nas cartas em que assina com outro nome, com longas passagens sobre seus delírios, para um de seus médicos. A segunda carta à autora Anaïs Nin, enviada antes de o autor ser internado em asilos psiquiátricos, e as cartas a André Breton, enviadas após o retorno de Artaud à sociedade, merecem destaque, uma vez que evidenciam a poesia na correspondência. Gostaria de escolher uma citação destas cartas, mas teria que copiá-las por inteiro.

Outra correspondência que merece destaque é a com Jean Paulhan, em que o autor descreve seu projeto de viagem ao México. Estas viagens e sua pesquisa resultaram em algumas obras de Artaud, notavelmente O teatro e seu duplo, em que propõe uma nova linguagem ao teatro.

A perda de si é melhor aproveitada por quem já teve contato com a obra e um pouco da vida de Antonin Artaud, uma vez que serve de complemento a ela.

Uma citação:

O DEVER do escritor, do poeta, não é de ir se esconder num livro, num texto, numa revista de onde ele nunca mais sairá, mas ao contrário de sair para fora para agitar, para atacar o espírito público senão para que ele serve? E para que nasceu?

(carta a René Guilly, 1948).


Você pode obter uma cópia desta obra aqui.

Daniela Moraes

Escritora. Literata. Lobisomem.