A poética e o inferno em Os Sertões

Ensaios Mar 17, 2020

Este ensaio pretende comparar a primeira parte de Os sertões (Euclides da Cunha) com O homem e a terra (Eric Dardel), e estudar brevemente a noção do sertão como um túmulo, como proposto por Nuno Ramos em A terra, e como a ideia comum de Inferno.

N'Os Sertões, Euclides quer antes ser cientista do que poeta, mas podemos ver que em muitos momentos sua voz poética fala alto, às vezes inclusive quase mascarando a científica. A obra de Dardel, embora se dedique a uma pura análise da relação do homem com a terra, é também poéticaem muitos aspectos: é, aliás, uma visão poética da geografia, mostrando o que veem os homens na terra – a água como calmaria, felicidade, e uma paisagem com a ausência dela, morte, por exemplo.

Dardel apresenta o espaço geográfico como algo não-estático, em constante mudança, algo que espelha a humanidade. Considera sua profundidade desde uma rocha a uma montanha, sempre mostrando os sentimentos que isso pode causar aos homens: a floresta como tenebrosa, a montanha com uma aspiração à sabedoria... Considera inclusive o clima e seus fenômenos, sempre relacionando-os à humanidade. “ … a paisagem não é, em sua essência feita para se olhar, mas a inserção do homem no mundo, lugar de um combate pela vida, manifestação de seu ser com os outros, base de seu ser social.” (p 32). Aqui vemos sua principal diferença em relação à Terra de Euclides da Cunha: a presença humana. Euclides vê e mostra a terra como personagem, como agente de si própria, e em poucos momentos menciona o homem como um dos que a transforma. Dardel, por outro lado, insiste na transformação do homem no ambiente: suas construções apagam o que é a natureza nas cidades, que, se assim podemos dizer, é a principal reação do homem ao meio – suas construções, que são sua base, formam sua cultura, seu modo de se vestir, locomover, enfim, viver. Mas a terra também é a base humana, há uma ligação quase umbilical do homem à ela: seus recursos são necessários – os minerais, a água, os frutos, o alimento que vem dos animais, e essa ligação primordial independe da cultura em que o ser humano está inserido.

Entre a vida no espaço geográfico construído, “artificial”, colocamos assim, as costas litorâneas estão entre as que mais atraem o ser humano para a vida, talvez pela própria presença da água: ela, como já mencionamos, é um sinônimo de presença de vida. Euclides da Cunha, n'Os sertões, ao mencionar os efeitos da presença da água sobre aquele solo compara o ambiente a um paraíso:

E o sertão é um paraíso...
Ressurge ao mesmo tempo a fauna resistente das caatingas: disparam pelas baixadas úmidas os caititus esquivos; passam, em varas, pelas tigueras, num estrídulo estreputar de maxilas percutindo, os queixadas de canela ruiva; correm pelos tabuleiros altos, em bandos, esporeando-se com os ferrões de sob as asas, as emas velocíssimas; e as seriemas de vozes lamentosas, e as sericoias vibrantes, cantam nos balsedos, à fimbria dos banhados onde beber o tapir estacando um momento no seu trote brutal, inflexivelmente retilíneo, pela caatinga, derribando árvores; (…),”

(p. 59)

Curioso notar que essa é a única menção de fauna durante este trecho do livro, sendo quase inteiramente composto pela flora ou as formações do relevo – especialmente as últimas, cujos detalhes são magníficos.

É interesse compararmos também os dois observadores dos autores – três, na realidade: Euclides tem dois, um que vê de cima, “desde as órbitas dos satélites e das space shuttles”, como diz Nuno Ramos (p 25) e outro que anda sobre a paisagem, o explorador heroico que Dardel menciona na segunda metade de sua obra, ambos humanos, no entanto, e não “deuses” que observam criações. Dardel tem apenas um observador, voz poética que compara textos de outros autores a paisagens, e descreve o sentimento humano – sendo sentimento a palavra-chave aí. Poderíamos dizer que as vozes de Euclides, ao contrário, são secas: uma delas é poética, sim, mas mesmo em seu ponto mais poético, que aqui consideramos a quinta parte do capítulo (“Uma categoria geográfica que Hegel não citou”), assim como o trecho “Higrômetros Singulares”, sua narração e descrição são secas. Ele antes quer ser cientista que poeta, é claro, mas em suas “falhas” nós vemos a secura do Sertão. A voz de Dardel é também mais próxima de seu objeto: ela vê e sente, enquanto a poética de Euclides apenas vê e, friamente, mas de maneira espetacular, descreve.

Dardel, em sua obra, menciona que  “a distância é experimentada não como uma quantidade; mas como uma qualidade expressa em termos de perto ou longe” (p. 10) e que o ser humano busca a distância que melhor facilita seu caminho. Aqui podemos fazer um paralelo com Euclides no momento em que ele diz que regiões como desertos ou o próprio sertão não são atraentes como caminho ou mesmo como moradia: no caso do sertão, é difícil de se alcançar e o clima é quase, se não de fato, um inimigo da vida. O sertão é desértico de vida, uma “terra ignota”. Talvez essa seja a razão da pouca menção de vida animal nesta parte do livro, tendo predominância da vida vegetal, que, junto da terra, se tornam os principais personagens do capítulo.

Anteriormente dissemos que Dardel menciona o espaço geográfico como algo não-estático e que a forma em que se apresenta é a síntese de suas mudanças no tempo. Cunha menciona a terra dessa maneira também: insiste durante todo o capítulo na formação do relevo, em como a terra age sobre si mesma. Esse movimento, no caso do sertão, que chamaremos também de “vida”, é pré-histórico. Embora a terra ainda se movimente nos dias de hoje, seu relevo e seu clima são quase como um cemitério, um cadáver de todas as movimentações tectônicas e orográficas das eras passadas. Nuno Ramos confirma isso: “desta atividade telúrica conhecemos apenas o registro fóssil, a cicatriz cravada num corpo que já morreu (…) para Euclides, de certa forma, a própria terra já morreu, arrastando consigo tudo que foi ativo em sua superfície. Como numa lição de anatomia, é à exumação de seu cadáver que estamos assistindo neste primeiro capítulo.” (p. 27). O sertão é um cadáver-cemitério. É um cemitério de Wanderley e seu cavalo, do homem que descansa há três meses, imperturbável por insetos ou sequer urubus, é também de lagos “extintos, agora em ipueiras apauladas”, (p 32) e de plantas que não suportam seu ambiente. No entanto, como já dissemos, a terra ainda se movimenta. E o que é o esse movimento? É o caos – é um movimento literalmente infernal.

A partir daqui, para efeito de comparação, ignoraremos todas as discrepâncias com os mitos infernais de Dante e Virgílio que nosso texto terá. Nos focaremos nos paralelos  possíveis no texto de A Terra com a noção simples de inferno, uma vez que há momentos no livro em que temos a impressão de que Euclides realmente descreve um inferno:

(…) Propelidas pelo nordeste, espessas nuvens, tufando em cumulus, pairam ao entardecer sobre as areias incendiadas. Desaparece o sol e a coluna mercurial permanece imóvel, ou, de preferência, sobe. A noite sobrevém em fogo; a terra irradia como um Sol escuro, porque se sente uma dolorosa impressão de faúlhas invisíveis; mas toda a ardência reflui sobre ela, recambiada pelas nuvens. O barômetro cai, como nas proximidades das tormentas; e mal se respira no bochorno inaturável em que a adustão golfada pela soalheira se concentra numa hora única da noite

(p. 41-42)

Então o Sertão também é inferno. É um inferno-paraíso, assim como Euclides da Cunha é um cientista-poeta. A obra se baseia em todas essas contradições.

Na obra há também momentos em que as reflexões sobre a terra se tornam sobre o ar e a água. E essas muitas vezes mencionam uma relação caótica, também infernal, entre estes elementos: a resistência entre a água e o ar seco, o “martírio secular da terra” e a água, a terra e o ar quente, que resulta numa vida, sim, mas uma vida que não permanece. E esse ciclo – e a própria ideia de ciclo – é um elemento infernal: a tortura eterna, e a punição dos heróis clássicos que cometeram erros incorrigíveis. Há um interessante trecho que podemos mencionar para confirmar essa parte:

Segundo numerosas testemunhas – as primeiras bátegas despenhadas da altura não atingem a terra. A meio caminho se evaporam entre as camadas referventes que sobem, e volvem, repelidas, às nuvens, para, outra vez, condensando-se, precipitarem-se de novo e novamente refluírem; até tocarem o solo que a princípio não umedecem, tornando ainda aos espaços com rapidez maior, numa vaporização quase como se houvessem caído sobre chapas incandescentes; para mais uma vez descerem, numa permuta rápida e contínua,a té que se formem, afinal, os primeiros fios de água derivando pelas pedras, as primeiras torrentes em despenhos pelas encostas (…)”

(p. 49)

A ideia da chuva não alcançar a terra inicialmente, evaporando-se no ar é, em si mesma, espetacular. Daí vem o ciclo entre a água quase cair novamente, até enfim conseguir alcançar a terra, “em cujas correntezas passam velozmente os esgalhos das árvores arrancadas, rolando todos e arrebentando na mesma onde, no mesmo caos de águas revoltas e escuras...” (p. 49). Vemos outra descrição de paisagem infernal, tanto das primeiras gotas de chuva até quando enfim a chuva cai. O sertão pode virar um paraíso com a chuva, mas mesmo ela é cruel sem eu solo, no primeiro momento. Vale notar, aí, que a água despedaça as árvores: talvez por sua força, talvez por já estarem mortas. Se for o segundo caso, podemos novamente ver o sertão como um cemitério.

Seguindo nosso paralelo, as plantas sertanejas são tanto as almas condenadas – que tentam a todo custo buscar segurança naquele ambiente – quanto, para os animais e humanos, os demônios. Destaque especial à palma sertaneja, extremamente espinhosa, maneira que têm para se proteger da seca. Ainda nesta metáfora, o Vaza-Barris e seus tributários são senão Aqueronte, Estige, Cócito e Flagetonte; a diferença estaria, é claro, no caso de os rios do Sertão secarem. Mencionemos também o calor excessivo e as fraturações no solo sertanejo como uma configuração quase ideal para o solo infernal:

“Deste modo se tem a cada passo, em todos os pontos, me lineamento incisivo de rudeza extrema. Atenuando-se em parte, deparam-se várzeas deprimidas, sedes de antigos lagos, extintos, agora em ipueiras apauladas, que demarcam os pousos dos vaqueiros (...)”

(p. 32)

Para encerrar, uma menção interessante: Euclides da Cunha menciona o homem como um dos principais agentes na formação de desertos. Sendo o sertão um deserto, ou quase um, e em período de seca, o inferno, vemos aqui o homem como aquele que “cava o próprio túmulo”, constrói seu próprio inferno.


Bibliografia:

CUNHA, EUCLIDES DA, Os Sertões. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2011. Você pode adquirir a obra em outras edições aqui e aqui.

DARDEL, ERIC. O Homem e a Terra. São Paulo: Perspectiva, 2011. Você pode adquirir a obra aqui.

RAMOS, NUNO. A Terra (Euclides da Cunha).

Daniela Moraes

Escritora. Literata. Lobisomem.