A polifonia em Memórias do Subsolo

Análises Abr 23, 2020

A consciência do narrador-protagonista de Memórias do subsolo (ou Notas do subsolo, a depender da edição), de Fiódor Dostoiévski,é formada em sua quase totalidade pelos pensamentos de outros sobre ele, pelas expectativas das reações que o fazem prever tudo o que fará ao encontrar as pessoas, mesmo que a maior parte de delas nunca cheguem a acontecer. Entre todas as mentes que compõem a sua, a do leitor também está inclusa, e durante muitas passagens em ambas as partes do livro o narrador faz indagações, “lê” a mente de seu interlocutor, interrompendo o próprio discurso como se caminhasse e falasse ao mesmo tempo, e a cada interrupção visse estampado nos transeuntes os pensamentos deles a respeito dele.

É em A propósito da neve úmida... que o narrador inicia suas memorias propriamente ditas. Após narrar o incidente com o soldado, fala sobre a visita a um ex-colega de escola, Símonov, e acaba por convidar a si próprio para um jantar no dia seguinte em homenagem a outro ex-colega, Zverkov. Após a refeição e uma discussão com o último, que tem o desfecho com a proposta de um duelo, o personagem reflete sobre a decisão:

“O duelo será assim que clarear, está decidido. Quanto ao departamento, isso será o fim. Há pouco Ferfítchkin disse lepartamento, em vez de departamento. Mas onde conseguir as pistolas? Bobagem! Peço um adiantamento do salário e compro as pistolas. E a pólvora e as balas? Isso quem resolve é o padrinho. E como conseguir fazer tudo isso antes de clarear? E onde vou arrumar um padrinho? Não tenho conhecidos... Bobagem! – gritei, agitando-me ainda mais, como num turbilhão. – Bobagem! O primeiro que eu encontrar na rua e que eu abordar será obrigado a ser meu padrinho, do mesmo modo que é obrigado a salvar uma pessoa que está se afogando. Até as hipóteses mais excêntricas devem ser admitidas. E se amanhã eu pedisse ao próprio diretor para ser meu padrinho, ele também teria de concordar, por puro espírito cavalheiresco, e teria de guardar segredo. Anton Antônytch...”

O problema é que naquele exato instante eu percebia, de maneira mais clara e viva do que qualquer outra pessoa no mundo, todo o torpe absurdo de minhas suposições e todo o reverso da medalha, mas...

(…)

De repente, um frio me percorreu.

“Não seria melhor... não seria melhor... se eu fosse direto para casa agora? Ó meu Deus! Para quê fui me oferecer ontem para aquele jantar! Mas não, não posso! E meu passeio de três horas da mesa até a lareira? Não, eles, eles e ninguém mais devem me pagar por esse passeio! Eles têm que lavar essa desonra!”

(…)

E se eles me entregarem à polícia? Não se atreverão! Ficarão com medo do escândalo. E se Zverkov, por desprezo, se recusar a duelar? Isso é até muito provável, mas então eu provarei para eles… Se isso acontecer, vou correndo amanhã à estação da posta na hora de sua partida, agarro-o pela perna, arranco seu capote quando ele for subir na diligência. Finco os dentes na sua mão e o mordo. “Vejam todos até que ponto podem levar um homem desesperado!”. Não importa que ele bata na minha cabeça com todos os outros atrás dele. Vou gritar para a plateia: “Vejam o moleque que parte para seduzir as circassianas com minha cusparada na cara!”. ”

(p. 98-99. Notas do subsolo. Tradução de Maria Aparecida Botelho Pereira Soares. Editora L&PM, 2008)

Em sua obra Problemas sobre a poética de Dostoiévski, o crítico Mikhail Bakhtin caracteriza as personagens de Dostoiévski  como mentes autônomas, independentes das ideias do autor, e denomina tal característica de polifonia. No trecho citado acima, essa propriedade se evidencia no constante contradizer da consciência do narrador. Sua primeira ideia, a confirmação do duelo, é logo contradita com o “mas” das pistolas e do padrinho que, por sua vez, é resolvido rapidamente no mencionado “turbilhão” de ideias da mente do personagem. Alguns destes pensamentos mal chegam a se desenvolver e logo são interrompidos por outro questionamento ou aparente solução, que por sua vez desencadeia outro processo de “planos” e assim por diante.

As contradições-“problemas” dos pensamentos no trecho são construídas como se diversas outras vozes se infiltrassem na mente do narrador e indagassem a validade de suas proposições: “como conseguir as pistolas e o padrinho?”, “e se eles te entregarem à polícia?”, “e se ele se recusar a duelar?” e suas respostas ou soluções, pontuadas em sua maioria por exclamações, são ditas pela voz do próprio narrador, que às vezes é interrompida por um outro interlocutor – “Não seria melhor se você fosse direto para casa agora?” – que é também interrompido por outro – “E o passeio de três horas da mesa até a lareira?”, formando um mar de vozes em que a consciência do personagem se perde. Ele, porém, e talvez até mesmo por se perder entre elas, transforma todas as essas vozes na sua própria.

No trecho transcrito, o último parágrafo merece atenção especial. Ele apresenta não só o desfecho de um dos problemas do narrador, o caso de o duelo não acontecer, como também uma voz verdadeiramente externa, sinalizada por aspas, que não parece ter sido englobada pela do protagonista: “Vejam todos até que ponto pode levar um homem desesperado!”. Tal observação, talvez perdida ou na rapidez em que o homem obriga o cocheiro a ir ou em todas as vozes que fazem parte da sua, pode ser tanto de um transeunte quanto de Zverkov, a respeito da intenção da mordida ou da concretização da mesma ou, ainda, do homem do subsolo sobre a fuga de Zverkov. É mais provável, entretanto, que expresse um juízo sobre as ações do narrador, uma vez que durante todo a obra ele, junto de de todos esses “outros”, se caracteriza como um homem inferior e ao mesmo tempo superior, mesmo que isso resulte em um “nada”: “nem mau, nem bom, nem canalha, nem homem honrado, nem herói, nem inseto.” (p. 13)


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Daniela Moraes

Escritora. Literata. Lobisomem.