A Tradição Clássica na Comédia de Dante Alighieri

Como uma das obras percursoras do Renascimento, a Divina Comédia tem dentro de si muito da cultura clássica greco-romana. Desde de seu título e formato até muito de seu conteúdo, podemos dizer que a obra de Dante tem uma característica quase enciclopédica em relação ao mundo clássico, em junção a outros temas universais. Neste ensaio vamos mostrar algumas das referências ao mundo clássico na Divina comédia, mas não temos a pretensão de cobrir o todo, uma vez que ele é extenso.

A primeira coisa que podemos salientar é, como mencionado, o título da obra. Em suas cartas, Dante menciona que a intitulou desta maneira seguindo a definição aristotélica de comédia, que, em oposição à tragédia, “tem um início ruim e um final bom”. Aristóteles também afirma que a comédia é “a imitação de pessoas inferiores” (Aristóteles, p. 23), no sentido de que sua representação não é a de heróis, e sim de pessoas de outras classes da sociedade que também não são possuidoras de grandes virtudes. A Divina comédia também não se trata de heróis. Apesar de a maioria de seus personagens serem parte de nobreza, nas divisões do Inferno e parte do Purgatório eles não apresentam virtudes – e por “virtude” aqui consideramos a definição cristã da palavra. Na verdade o próprio Dante, protagonista, é marcado como um pecador em sua entrada no Purgatório. O quadro muda quando chegamos ao Paraíso, onde seus habitantes são todas almas virtuosas. Mas para ser merecedor de estar ali, Dante precisou purgar seus pecados.

Aqui vemos uma semelhança com outro gênero da tradição clássica, a epopeia. Podemos traçar um paralelo com duas das grandes epopeias clássicas, a Odisseia e a Eneida. Ambas tratam de viagens, uma para a volta ao lar e a outra a busca de uma nova terra, destinada à grandeza. Podemos dizer que a jornada de purificação de Dante se assemelha muito à Odisseia numa interpretação moderna, a jornada de um homem para retornar ao lar após passar por incontáveis desafios e perigos. Dante também menciona que, pela definição de comédia, ela também é escrita em linguagem baixa. Ele escreveu sua Comédia não em latim, que na época era considerado a alta linguagem, mas em seu dialeto, que viria a construir a língua italiana moderna, considerado baixo pelos intelectuais.

Mencionamos o caráter enciclopédico da Divina comédia em relação o mundo clássico e isso se vê no fato de Dante ter unido personagens da mitologia greco-romana à mitologia cristã. Muitas das pessoas que Dante encontra no Inferno e no Purgatório fazem parte desta tradição, como Antígona e Esmena no Limbo e a figura de Aracne no Purgatório como símbolo da arrogância. A própria geografia da Divina comédia é uma referência à cultura clássica, no sentido que Dante põe a Terra como centro do Universo e todos os outros astros girando ao redor dela. Tal imagem é repetidamente mostrada durante a Comédia durante a passagem do tempo, e especialmente no Paraíso, onde cada círculo é representado por algum planeta do Sistema Solar.

Outra referência que a Comédia de Dante tem à tradição clássica é justamente ter tomado o poeta Virgílio como um de seus personagens. Virgílio é o guia de Dante pelo mundo dos mortos, e quando Dante o encontra pouco antes de se dirigirem ao Inferno, é assim que diz:

Ó dos outros poetas honra e flama, / valham-me o longo estudo e grande o amor / com que sorvi de teu volume a chama. / Tu és meu mestre e meu dileto autor; / de ti somente eu aprendi o meu verso / e o nobre estilo que me fez louvor.

(p. 83)

Dante descreve Virgílio como seu grande mestre. Talvez a ideia do poeta de escrever uma jornada para o Inferno tenha partido de suas leituras de Virgílio, e seus outros versos, dos versos do autor. Além disso, a escolha não é feita por acaso, selecionando um grande poeta clássico. Virgílio é dito por muitos como uma espécie de profeta do nascimento de Cristo, descrevendo uma idade de ouro vinda após o nascimento de um menino em sua quarta bucólica:

Já chegou a última época da profecia de Cumas: / surge novamente a grande ordem da totalidade dos séculos. / A Virgem já está de volta, voltam os reinos de Saturno, / uma nova geração é enviada do alto do céu. / Tu, casta Lucina, favorece o menino que nasceu há pouco; / por causa dele, a época de ferro desaparecer / e a geração de ouro surgirá no mundo.

Isto torna Virgílio uma figura de importância na teologia e portanto uma grande escolha como o guia de Dante pelo mundo dos mortos.

Uma referência bem explícita a ambas epopeias anteriormente mencionadas é a própria jornada de Dante pelo Inferno. Tanto Enéias quanto Odisseu passam por ele também em suas viagens, embora, é claro, suas concepções de “inferno” fossem diferentes do que a tradição cristã dita. Dante rascunhou seu Inferno baseando-se nos clássicos, então, tomando como referência o canto VI da Eneida e o canto XI da Odisseia, faremos paralelos com a obra de Dante.

A primeira semelhança que notamos é o barqueiro Caronte, que transporta as almas para o outro mundo. Em seguida vemos um importante elemento geográfico, descrito por Virgílio desta maneira:

Daqui parte o caminho do Aqueronte / Que em funda bolha férvida voragem, / E ao Cócito arremessa areia e lodo.

(Eneida, canto VI)

Dante incorpora os mesmos rios em sua versão do Inferno, colocando primeiro também o rio Aqueronte antes de entrar-se no Limbo. No Limbo, Dante encontra célebres poetas da antiguidade: Homero, Horácio, Ovídio e Lucano. De acordo com Ernst Robert Curtius, a escolha de cada um desses poetas não é por acaso e cada um simboliza uma coisa: Homero está ali como mestre supremo, o primeiro que descreveu uma viagem ao mundo dos mortos. Horácio representa a moral, e Ovídio, além da moral, é junto de Lucano, o conhecimento do mundo dos mortos. Os cinco poetas, sendo quinto Virgílio, “tomando-me [Dante] em sua companhia, / eu sexto fui dos sábios na reunião” (p. 95). Dante se coloca como um igual, e podemos dizer que ele toma para si cada um dos simbolismos dos poetas, sendo um. Aqui não falamos do Dante que viaja, mas sim do que escreve, do narrador-poeta. Ele faz parte da tríade que levou seus heróis ao Inferno (muito embora Dante-personagem não seja um herói clássico, ele é posto nesta posição quando vemos a Comédia como uma epopeia), descreve um poema sobre a moral da religião cristã que tem em si um profundo conhecimento do mundo dos mortos. Este é um dos trechos em que o poeta se reconhece como um grande autor. É no Limbo que também encontramos outras figuras da mitologia clássica, como Electra, Heitor e o próprio Enéias.

Outro rio da tradição clássica presente na obra de Dante é o Lete, o rio do esquecimento, onde, no final do Purgatório, Dante é mergulhado após confessar seus erros a Beatriz. Aí podemos dizer que o “esquecimento” é na realidade a purgação dos pecados, o que torna Dante capaz de entrar no Paraíso.

Mais um elemento semelhante nos três poemas é o caráter profético que a visita ao mundo dos mortos apresenta. Odisseu encontra Tirésias, um adivinho cego, que, após beber de seu sacrifício, conta ao aventureiro sobre seu futuro como sobrevivente único do grupo e que conseguirá retornar a seu lar. Enéias encontra seu pai, Anquises, que lhe dá uma profecia a respeito do grande império que a cidade fundada por seus descendentes se tornará. Dante também encontra um personagem de caráter profético, seu antepassado Cacciaguida, que no Paraíso lhe conta sobre seu exílio:

O que te é mais querido, na mudança / perderás e será a primeira dor / do exílio vil, que o coração te alcançará (…)

(p. 440)

Enquanto o mundo dos mortos de Homero se apresenta como uma versão “apagada” e fria do mundo dos vivos, sem distinção aparente de uma alma para a outra, o mundo dos mortos de Virgílio é mais elaborado. Ele divide o lugar conforme cada grupo característico de almas, incluindo um guardião, também tomado por Dante, Minos. Embora a tradição pagã romana não tivesse uma noção de inferno moral, vemos que isso acontece de alguma forma em Virgílio:

Por crime falso à morte os condenados / Estão perto. Os lugares não se assinam / Sem sortes, sem juiz: rodando a urna, / Chama ao silente povo e inquire Minos, / E das vidas conhece e dos pecados.

(Eneida, canto VI)

A moralidade aqui não é tão profunda quanto em Dante, mas vemos que os suicidas, por exemplo, são levados a um lugar diferente dos guerreiros. O pai de Enéias é encontrado nos Campos Elísios, onde estão os bem-aventurados. Há uma compartimentalização do mundo dos mortos que não vemos em Homero e que vemos ainda mais elaborada em Dante. Minos, na Comédia, também tem um caráter de juiz, porém maior:

Minos as culpas avalia e a pena: / no corpo enrola a cauda sem detença, / conforme é fundo o ciclo a que condena.

(p. 99)

Ele é transformado em um demônio-juiz e com sua cauda tem a habilidade de dizer para qual círculo o condenado irá.

O Inferno dantesco tem muito da caracterização aristotélica das virtudes e vícios. Desde sua compartimentalização até as motivações do poeta para colocar cada personagem no Inferno. Damos como exemplo o canto XXVI do Inferno, em que Dante encontra Ulisses, e Virgílio pergunta a ele como foi sua morte. Ulisses narra sua última viagem, a que levou à sua morte, e inicia o relato dizendo como nada saciava sua curiosidade a respeito do mundo:

(…) nem delícias do filho, nem clemente / piedade ao velho pai que a dor consome / nem de Penélope o amor sincero / nem sua fé, universal renome, / vencer puderam meu ardente e vero / desejo de formar ideias claras /das terras, das virtudes e do fero / valor dos homens e nações preclaras.

(p. 183)

Aristóteles descreve o vício como ou o excesso ou a falta da característica correspondente – por exemplo, a virtude correspondente ao medo seria a coragem, seu vício por excesso, a temeridade, e seu vício por falta, a covardia. Ulisses está no Inferno, além pelo feito do cavalo de Troia, pelo seu excesso de curiosidade, excesso que o levou a desafiar os limites do mundo. Dante, de certa maneira, também desafia tais limites ao caminhar pelo mundo dos mortos com Virgílio. Ele ultrapassa as barreiras do conhecido, do que é permitido a ser conhecido pelos homens, e segue jornada em direção ao que ninguém jamais voltou para contar. Ele é, em alguns sentidos, o próprio Ulisses, o explorador que Roma fez dele em sua época. Para explicar a analogia, temos esses versos como início do primeiro canto do Purgatório:

Já vai, para sulcar ondas melhores, / do gênio meu a nau soltar as velas / deixando atrás de si um mar de dores;

(p. 232)

Vemos aí uma metáfora com elementos navais, e muitas como esta estão presentes pela Divina comédia. Dizemos que Dante é como Ulisses não como ele era na Ilíada, quando cometeu um dos pecados que o levou para o Inferno, mas na Odisseia, um desbravador. Em Ulisses há o desejo de retornar ao lar, e podemos dizer que em Dante existe o mesmo elemento. Ele se diz “perdido numa selva escura”, vendo bestas que lhe tiraram a segurança de estar no mundo, cada uma representando uma instituição opressiva ao poeta. Sua jornada pelo mundo do além é, além de uma purificação, uma busca pela segurança que ele perdeu. Há em Dante também um pouco de Enéias: o caráter profético que a viagem do segundo teve a Roma, e a que a do primeiro teve a Florença.

O mundo que Dante construiu na Divina comédia se apoia tanto no cristianismo quanto na tradição greco-romana pagã. O cristianismo pode ser o elemento mais alto no poema, mas a influência pagã é tanta e tão completa, que se é impossível ter a Divina comédia sem ela.

Bibliografia

ALIGHIERI, Dante. Divina Comédia. Cotia: Ateliê Editorial, Campinas: Editora da Unicamp, 2011. Tradução de João Trentino Ziller.

CURTIUS, Ernst Robert. \European Literature and the Latin Middle Ages.** New Jersey: Princeton University Press, 2013. Tradução de Willard R. Trask.

HOMERO. Odisseia. Centaur Editions, 2013. Tradução de Manuel Odorico Mendes. (versão digital)

NOVAK, M.L. & NERI, M.L. (Org.) Poesia Lírica Latina. São Paulo: Martins Fontes. 2003

PESSANHA, José Américo Motta (Org.). \Os Pensadores: Aristóteles – Volume II.** São Paulo: Nova Cultural, 1991. Tradução de Leonel Vallandro e Gerd Bornheim.

VIRGÍLIO. Eneida. Centaur Editions, 2013. Tradução de Manuel Odorico Mendes. (versão digital)

Imagem de cabeçalho: ilustração de Inferno por Sandro Botticelli.

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This article was updated on 11 Agosto 2020

Daniela Moraes

Literata e lobisomem.