Akira e o gênero Cyberpunk

Abr 20, 2020

Akira é um mangá japonês criado por Katsuhiro Otomo, publicado originalmente entre 1982 - 1990 e atualmente relançado aqui no Brasil pela editora JBC em 6 volumes. Antes de adentrar no tema preciso alertá-lo que este texto terá spoilers (leves!) e que seu objetivo será discutir a importância da obra enquanto apresento reflexões sobre o gênero cyberpunk.

A história se passa em meados de 2020 em Tokyo, ou melhor, Neo-Tokyo, pois nesta realidade houve uma terceira guerra mundial que em 1982 dizimou a cidade. Descrevendo-a sob o ponto de vista tecnológico é possível compreender a razão de cyberpunk ser considerado um subgênero de ficção cientifica (e também o porquê da presença de “Cyber” em seu nome): veículos de design moderno e super velozes, além de robôs autônomos para vigilância e perseguição presentes nas ruas criam ambientação futurista high tech (lembre-se que a história se passa em um futuro a 40 anos de distância).

Analisando o protagonista é possível notar as influências da cultura “Punk”, movimento nascido nos Estados Unidos na metade dos anos 70 que também dá nome ao gênero: Kaneda é líder de uma gangue de motoqueiros, rebelde (para com os adultos e sociedade ao seu redor) e de humor sarcástico.

Muitas obras anteriores a década de 80 eram super otimistas sobre o futuro, todavia, com o início da Guerra Fria e demonstrações bélicas grandiosas, o clima de tensão e negativismo se alastrou pelo mundo, tendo Akira como um de seus muitos frutos. Notamos isso de forma bastante clara quando a gangue de Kaneda acaba se envolvendo acidentalmente com experimentos militares secretos que visavam transformar crianças em armas de destruição em massa. No meio dessa confusão ele conhece Kei e se junta a um grupo de resistência antigovernamental. Sim, neste momento é possível perceber mais uma das influências da obra: Star Wars (1977), de George Lucas.

Tetsuo é também mais um personagem importante, grande amigo de Kaneda que ao longo da narrativa, após ser sequestrado e tomado para os experimentos militares citados, desenvolve poderes psíquicos muito aquém do esperado pelo Coronel, diretor do projeto Akira. Corrompido por sua ambição, Tetsuo vai se tornando um dos grandes antagonistas dessa história. Entre os demais personagens figuram militares, membros da resistência e do governo.

Personagens cativantes e narrativa frenética não são tudo que a obra tem a oferecer como deve imaginar, pois é por conta da na temática, ambientação, traço e pioneirismo que compreendemos a razão por este mangá ser um clássico e ter inspirado tantos outros. Em 1982 o termo cyberpunk nem se quer era utilizado no Japão, evidenciando sua participação na constituição do gênero. Não obstante, a construção dos cenários riquíssimos em detalhes traz não só a sensação de poluição visual que se tornaria característica, mas também uma admiração profunda por conta da complexidade e tempo demandado para páginas semanais tão elaboradas. Do mangá surge uma adaptação em anime de mesmo título, em 1988, que também é aclamada pela mesma razão: a riqueza de detalhes nos quadros.

Para uma experimentação mais ampla do gênero sugiro que conheça Ghost in the Shell (mangá, animação e filme), Blade Runner (1982), Blade Runner 2049 (2017) e Matrix (1999). Com isto será capaz de comprovar os elementos comuns a estas obras e notar os diferentes aspectos que os roteiros podem explorar. O primeiro que gostaria de ressaltar diz respeito a quebra de nossas expectativas por conta do desenvolvimento tecnológico, que distantes do propósito de melhorar a vida das pessoas resultou em pífios avanços sociais. Eis então um futuro recheado de contrastes: de um lado grandes corporações, androides sofisticados e carros voadores, e de outro uma grande parcela da população vivendo de forma marginal e por vezes sub-humana. Graças ao ótimo trabalho de produção de todos esses títulos é possível sentir o clima pesado destas locações.

O segundo divisor comum que escolhi, presente na literatura desde títulos antigos como Frankenstein (1823), é a relação entre ética e ciência, bem como seus limites morais. Isto pode ser visto quando entendemos o que é o projeto Akira e as atrocidades a que pessoas são submetidas em seus experimentos, ou quando nos revelam que a humanidade optou por desenvolver e utilizar androides conscientes como mão de obra escrava em Blade Runner. Quais as barreiras que não podemos ultrapassar? Como impedir que a ambição, seja ela econômica, expansionista ou de qualquer outra natureza, prevaleça sobre valores tido hoje como fundamentais?

A atenção a diferentes camadas contidas em histórias são fundamentais para sua apreciação, especialmente destas vistas como exercícios da imaginação de autores para a sociedade em que possivelmente viveremos. Esta profundidade relaciona-se diretamente com suas importâncias históricas, além de justificar a relevância de suas discussões mesmo tantos anos depois. Akira, e os diversos produtos do subgênero cyberpunk são incríveis, não deixe de conferir e instigar suas próprias reflexões. Caso se interesse pelo material, não se esqueça de utilizar os links abaixo, desta forma ajuda este conteúdo a chegar a mais pessoas.

Akira Mangá - Volume 1 – Editora JBC

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Akira Mangá - Volume 2 – Editora JBC

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Akira Mangá - Volume 3 – Editora JBC

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Akira Mangá - Volume 4 – Editora JBC

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Akira Mangá - Volume 5 – Editora JBC

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Akira Mangá - Volume 6 – Editora JBC

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Frankenstein Livro – Editora Dark Side

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