Alienação e conspiração em O Inquilino

Análises Abr 03, 2020

A obra O inquilino foi escritaem 1964 por Roland Topor, artista surrealista francês. Segue uma linha um tanto depressiva de um horror labiríntico, tratando-se da alienação de si próprio e da paranoia.

A história se inicia com o jovem francês de origem polonesa, Trelkovsky, em busca de um novo apartamento, uma vez que foi despejado de seu antigo. Encontra um, por indicação de um amigo, na rue des Pyrénées. O apartamento antes pertencia a uma inquilina que tentou cometer suicídio ao se jogar da janela, e o jovem resolve, antes de negociar o local, visitá-la no hospital parar ter notícias de sua saúde. Quando é enfim decidido que ficará com o apartamento, inicia-se uma trama que toma como tema seu relacionamento com os vizinhos, os quais ele acredita que realizam uma conspiração contra si: transformá-lo em Simone Choule, a antiga inquilina, e fazer com que tente se suicidar também.

O tema da alienação começa logo no início da obra, quando o protagonista é expulso de seu antigo apartamento. Lá ele construiu uma vida inteira, lembranças que o compõem, então naturalmente se sentiria alienado de si mesmo ao ser deposto do lugar. Talvez esta seja a chave da novela, se encarada de maneira natural e não sobrenatural: Trelkovsky está desacostumado a seu novo lar, e uma confusão com os vizinhos no dia de sua festa o faz ter medo de ser rejeitado por eles. Sua fuga é na antiga inquilina, cuja identidade adota por ser o que há ao seu redor naquele novo e desconhecido ambiente. Podemos até dizer neste caso que há uma transposição da identidade de Simone Choule para Trelkovsky, e isso pode ser confirmado no epílogo, que espelha exatamente uma cena do segundo capítulo, quando o jovem vai visitar a antiga inquilina em sua cama de hospital.

Mas a transposição de identidade, que é também o mecanismo do estranho na novela, demora a acontecer. Antes mesmo de ter certeza das intenções de seus vizinhos, Trelkovsky precisaria passar por uma crise – sentir-se perdido, já separado de si. Essa crise se inicia já no início da obra, quando deixa seu primeiro apartamento:

Havia vivido tantos anos naquele lugar que não conseguia se familiarizar com a ideia de que, daqui para frente, estava acabado. Nunca mais iria rever aquele lugar que havia sido o guardião de sua vida. Outros viriam e tornariam irreconhecíveis as paredes que ele conhecia tão bem, que transformariam a ordem, que iriam impedir a simples suposição de que um certo senhor Trelkovsky poderia ter morado lá antes dele. Sem cerimônia, de uma noite para outra, ele iria embora.

(p. 24)

A transposição de identidades aconteceria no momento vago entre Trelkovsky sair de seu antigo apartamento e conseguir o novo, isso é, na visita ao hospital, mesmo que tenha demorado a se manifestar. É como se os apartamentos e não as pessoas tivessem as identidades, e quando ele vai para o segundo, acaba por adquirir a personalidade (e aparência, por assim dizer) da antiga inquilina. Outra maneira de se ver isso é o apego que ele sentia ao seu antigo: além de sentir preso ao local por ter construído uma vida ali, Trelkovsky também se sentiria preso à sua identidade antiga. Trocar o apartamento por outro seria trocar uma identidade por outra, bem diferente da sua e à qual ele não está acostumado – e portanto sentiria que os vizinhos são quem querem que ele adquira a nova identidade.

Ao mesmo tempo, no entanto, apesar do estranhamento da transposição de identidade, vemos logo no início da obra que Trelkovsky é apegado a Simone Choule. Ao receber a notícia de sua morte, “era como se ele acabasse de perder alguém muito querido” (p. 20). Talvez seu “indescritível arrependimento de não ter conhecido Simone Choule mais cedo” tenha se desdobrado na transposição de identidade: ele se obcecou pela antiga inquilina a ponto de adquirir sua identidade. Isso é explicitamente dito quando Trelkovsky lê suas cartas e seus livros, interessando-se pelos mesmo assuntos que ela. A obsessão também explicaria seu relacionamento com Stella, a amiga de Simone: talvez uma tentativa de se aproximar mais de Choule.

Quanto à paranoia, podemos dizer que viria também por ele estar em um local desconhecido. O incidente no dia de sua pequena festa e as provocações de seus amigos o fariam senti-la, e também a ideia de estar preso entre os vizinhos:

Em nenhum momento de sua vida no apartamento esquecia de que tinha, precisamente, alguém em cima, alguém abaixo e outros dos lados. Aliás, se estivesse se esquecido, teriam se encarregado de lembrá-lo.

(p. 30)

A alienação também pesaria nesse aspecto, mas não a de si e sim a do mundo: após deixar sua antiga casa, Trelkovsky sentiria-se desolado, perdido em relação ao mundo exterior. Isso transformaria tal universo em algo opressor. Além disso, sendo um parisiense com nome eslavo e frequentemente perguntado se é estrangeiro, Trelkovsky é, como diz Thomas Ligotti em sua obra The conspiracy against the human race [A conspiração contra a humanidade], um “outsider”. No volume, o autor explica bem a relação entre Trelkovsky e seus vizinhos, assumindo que a tal conspiração é real:

Trelkovsky é um outsider e está num mundo em que outsiders são perseguidos, como são no mundo real. Enquanto procura um novo lar, o senhoria, Monsieur Zy, e outros residentes fazem-no sentir como se fosse um ninguém. Exercendo o prestígio autoincumbido, os perseguidores de Trelkovsky conseguem manter suas próprias ilusões de que são alguém, pessoas reais que estão confortáveis no inferno que criaram para si mesmas. Qualquer um que é marcado como sendo de fora do gurpo é competição justa para aqueles que querem afirmar sua realidade sobre todas as outras. Mas, ainda, eles também são ninguéns. Se não fossem, a perseguição não seria necessária: eles passariam pela vida com a consciência tranquila de sua substância e valor.

(p. 118; tradução minha)

Sendo real a conspiração e levando em conta os comentários de Ligotti, o livro é ainda mais depressivo no aspecto de alienação – é um exemplo de mundo selvagem, de todos contra todos, em que os vizinhos monstruosos de Trelkovsky precisam rebaixá-lo de alguma forma para tomarem a si mesmos como sujeitos. A forma que encontram de fazê-lo é aliená-lo de si próprio, roubar “suas memórias”, como mencionado no capítulo sexto, e transformá-lo em alguém completamente diferente – uma mulher, desconhecida por ele – e dar a ele o mesmo fim que ela teve. A força de tal paranoia/conspiração é tamanha que Trelkovsky se transforma em Simone Choule por conta própria, fisicamente ao menos. É por seu próprio esforço que comprou a peruca e se maquiou, foi por seu próprio esforço que se lançou da janela no final do livro, sem a necessidade de um carrasco para obrigá-lo a tal. Houve uma resistência, é claro, mas ela se mostrou inútil, e mesmo quando foi mostrada, Trelkovsky já parecia entregue à metamorfose.

A partir da paranoia podemos também iniciar uma comparação entre Trelkovsky e o protagonista do conto O horla, de Guy de Maupassant. No caso de Maupassant, a história é sobre um homem que se acredita perseguido por uma criatura maligna invisível chamada Horla. No conto o protagonista lentamente descende à loucura por conta do monstro, seja ele real ou apenas um pedaço de sua imaginação. As semelhanças com O inquilino são numerosas, e vamos explorar brevemente algumas agora.

A primeira delas é a impressão de uma perseguição. Curioso notar que ambas as obras têm um momento em que os protagonistas adoecem – sentem desconforto e mal-estar –, pouco antes de terem certeza de serem perseguidos. É como se o corpo necessitasse deste momento frágil para desistir de sua identidade residente para deixar a nova entrar. No caso do conto de Guy de Maupassant, a paranoia parece vir da doença, assim como a perseguição:

Nenhuma mudança! Meu estado é realmente estranho. Quando a noite se aproxima, sou invadido por uma incompreensível sensação de intranquilidade, como se a noite escondesse alguma catástrofe ameaçadora. Janto às pressas e então procuro ler, mas não compreendo as palavras e mal distingo as letras. Caminho de um lado para outro da sala, acabrunhado por uma sensação confusa de medo irresistível, medo do sono e medo da cama. Lá pelas dez horas subo ao quarto. Assim que entro dou duas voltas à chave e ponho a tranca na porta. Tenho medo... de quê? Até há pouco, não tinha medo de nada... Abro os armários e olho embaixo da cama. Escuto... o quê? Não é estranho que uma simples sensação de mal-estar, a má circulação, talvez a irritação de um filamento nervoso, uma ligeira congestão, um pequeno distúrbio no imperfeito e delicado funcionamento de nosso mecanismo vivo, possa transformar o mais despreocupado dos homens em melancólico e em covarde o mais valente?

(p. 3)

Outra semelhança que há entre as obras é a mudança de identidade dos protagonistas, ou a ameaça de mudança, e ambos de um agente externo, isto é, contra a vontade do progonista. No caso de O inquilino, são os vizinhos que querem transformar Trelkovsky em Simone Choule. Em O horla, é uma força invisível que tenta se apossar do protagonista, fazendo-o cometer atos contra sua vontade. Vemos aí uma terceira semelhança, que seria a dúvida quanto a realidade da perseguição: os vizinhos de Trelkovsky não têm motivo algum para querer transformá-lo em outra pessoa e uma força invisível parece muito bem ser apenas criação da mente do protagonista de O horla. Embora em alguns momentos a perseguição pareça se tornar real – no caso da primeira obra quando Trelkovsky vê o carrasco, e no segundo, quando recebe a notícia de que um mal semelhante ao seu perturba pessoas em outros lugares, ainda há espaço para dúvida, especialmente pela maneira em que as duas narrativas são feitas: não há mudança de ponto de vista para confirmar a veracidade da perseguição e tudo o que temos para confiar são os olhos dos perseguidos, paranoicos e quase insanos a partir do final das narrativas.

A partir daí podemos dar mais força à teoria de que Trelkovsky é apenas paranoico, de que não há nenhuma conspiração real e ele, levando uma confusão com os vizinhos longe demais, enlouqueceu e fugiu dando a si próprio a identidade da antiga inquilina. Isso transforma O inquilino numa descida mais cruel à insanidade pela autoalienação. Pergunta-se ele na ocasião do roubo de suas fotografias e de ter encontrado o dente perdido de Simone Choule:

– A partir de qual momento – Trelkovsky perguntou-se – o indivíduo não é mais aquele que a gente pensa? Tiram-me um braço, muito bem. Eu digo, eu e meu braço. Tiram-me os dois, digo: eu e meus dois braços. Retiram as pernas, eu digo: eu e meus membros. Retiram meu estômago, meu fígado, meus rins, supondo que isso seja possível, eu digo: eu e minhas vísceras. Cortam-me a cabeça, o que dizer? Eu e meu corpo, ou eu e minha cabeça? Qual o direito de minha cabeça, que na verdade é só um membro, de se atribuir o título de “eu”? Por que ela contém o cérebro? Mas há as larvas, os vermes, que eu sei ainda que não têm cérebro. Para esses seres, então, há alguma parte dos cérebros que dizem: eu e meus vermes?

Com este trecho podemos concluir que no universo da obra o sujeito é incapaz de se denominar um sujeito. Ele é não só devastado pelo mundo ao redor mas também por si mesmo. “Todos são ninguém; ninguém tem o poder de definir quem é”, diz Ligotti (p. 118; traudução minha). A fuga é ou na perseguição, no caso dos vizinhos de Trelkovsky, ou em outra pessoa, no caso dele próprio. A partir do momento em que começa a se metamorfosear em Choule, sua fuga também passa a ser em seu relacionamento com Stella e não nos antigos amigos, dos quais se afasta por conta própria. No conto de Maupassant, a fuga do protagonista é literal: ele foge dos lugares em que está por viagens, às vezes de maneira frustrada pois o Horla aparentemente o obriga a ficar em casa.

Essa alienação vai se tornando cada vez mais pesada conforme a obra passa, ao ponto de Trelkovsky considerar as pessoas ao redor “marcianos”, tão distantes e desconhecidas que muito bem poderiam ser de outro planeta:

Marcianos, eles eram todos marcianos. Mas tinham vergonha, então tentavam ocultar este fato. Todas as suas monstruosas desproporções que ele havia chamado, definitivamente, de proporção, e sua feiura inimaginável, de beleza. Aliás, eles eram belos, mas não queriam concordar com isso. Eles agiam naturalmente. Uma vitrine mostrou-lhe sua imagem. Ele não era diferente. Igual, exatamente igual aos monstros. Ele fazia parte da espécie deles, mas por razão desconhecida, ele era deixado de lado. Não confiavam nele. O que eles exigiam era sua obediência às regras incongruentes e leis absurdas deles. Absurdas só para ele, pois não distinguia todas as finezas e sutilezas.

(p. 75)

Sua separação do mundo ao redor torna mais difícil segurar a identidade que tem. Sua loucura torna mais fácil a transposição de identidades, e se tudo o que o mundo pede é “sua obediência às regras incongruentes”, não importa quem ele é – e também não importa se é loucura ou conspiração: Trelkovsky se transforma em Simone Choule e isso é mostrado no epílogo, quando o homem na cama grita ao ver uma figura parecida consigo mesmo ao pé da cama, junto de Stella. Mas o que tal grito quer dizer? Para Ligotti, é a realização do que aconteceu e do que vai acontecer para a figura que se parece com ele, mas talvez seja algo mais simples: talvez ele grite porque a metamorfose está completa, por ter se transformado em Simone Choule e alguém, transformado em Trelkovsky, tomou seu lugar. A obra aí faz um movimento quase circular para provar a transposição de identidades, espelhando o capítulo em que Trelkovsky, o antigo, vai visitar Choule no hospital. Comparando-se agora com Maupassant, não há o movimento circular, mas as tramas se finalizam e se resolvem da mesma maneira: pelo suicídio. Ambos vendo-se incapaz de se livrarem da ameaça, resolvem tirar a própria vida numa última tentativa insana de fuga. Para Trelkovsky, isso significaria também a metamorfose completa, e para o protagonista de O horla, sua liberdade.

O movimento circular que vemos em O inquilino pode abrir outra teoria: a de que Trelkovsky não existe e Choule é quem é a protagonista do livro, isto é, uma transposição contrária de identidades. Talvez, na cama, a inquilina precise ela mesma de uma fuga, e imagina sua vida como sendo a de outra pessoa, alguém desconhecido por ela. Isso explicaria a obsessão de Trelkovsky pelas coisas que Choule admirava e gostava e sua própria metamorfose. A paranoia quanto aos vizinhos, neste caso, seria apenas um escape para dar suporte à transposição de identidades entre Choule e Trelkovsky. A metamorfose, no entanto, mostraria que não há saída da condição em que Choule se encontra, que, não importa o quanto ela tente fugir – seja dos vizinhos, seja para Stella – seu final será sempre o mesmo: o suicídio. O grito no hospital no final, então, seria a mesma cena do capítulo segundo, um grito de realização de que ela está condenada a sempre repetir o final que lhe foi dado pela narrativa. A partir daí podemos especular as razões de seu suicídio: a solidão excessiva, provada pela alienação opressora; os desejos homossexuais que ela teria em relação a Stella, provados pelo romance que Trelkovsky teve com a moça; uma briga séria com os vizinhos, provada pela conspiração de que Trelkovsky imaginava ser vítima.

De uma maneira ou de outra, independente se a história da obra foi uma fantasia na cabeça de Choule ou se realmente houve um Trelkovsky – um homem sem primeiro nome – que se metamorfoseou na antiga inquilina de seu apartamento, a chave da obra é a perda ou transposição da identidade. Mas o dilema, de acordo com Ligotti, é resolvido: : ““A partir de qual momento o indivíduo não é mais aquela que a gente pensa ser?” Resposta: quando a defesa dele, conjuntamente com aquelas deste mundo fabricado, deixam de se sustentar e despencam nas mentiras arrogantes que sempre foram e sempre serão.” (p.119; tradução minha) Isso resolve ambas as narrativas consideradas neste ensaio.


Bibliografia:

TOPOR, Roland. O Inquilino. Barueri, SP: Amarilys, 2012. 136 p.

LIGOTTI, Thomas. The Conspiracy Against the Human Race: A Short Life of Horror. Penguin Books. 2007. 272 p.

MAUPASSANT, Guy de. O Horla. Grua Livros, 2017. 88 p.


Você pode comprar a obra O Inquilino por este link. The Conspiracy Against the Human Race está disponível, em inglês, aqui e O Horla, aqui.

Daniela Moraes

Escritora. Literata. Lobisomem.