As Visitas do Dr. Valdez (João Paulo Borges Coelho)

Resenhas Mar 12, 2020

As Visitas do Dr. Valdez, de João Paulo Borges Coelho, publicado em 2004, se passa entre o fim da colonização portuguesa e a independência de Moçambique. Situado em Mucojo e Beira, narra a história de duas famílias por três gerações a partir do conflito central entre as patroas Sá Caetana e Sá Amélia, e o empregado Vicente. Dois núcleos se desdobram: a do colonizador, representada pela família de Sá Caetana e Sá Amélia, majoritariamente no espaço de Mucojo, e a do colonizado, representada pela família de Vicente.

Utilizando o espaço de clausura do apartamento na cidade de Beira e a memória das personagens, temos um passeio pela história do próprio país, contada pela perspectiva pessoal e familiar de cada núcleo. Muitas vezes, essas memórias são despertadas por um simples elemento do presente, tal como o açúcar quando Vicente - vestido de Dr. Valdez - é convidado a tomar chá e a partir deste pequeno incidente, é desvelado toda uma conjuntura histórica e social, de dimensões pessoais mas também coletivas, já que as implicações entre essas duas esferas são indissociáveis em casos de trauma histórico, como é a colonização.

A família de Vicente serve a família de Sá Caetana e Sá Amélia há três gerações. Seu pai, Cosme Paulino, tinha um certo orgulho da servidão, e almejava que o filho fosse igualmente empenhado na tarefa de acompanhar as patroas em fuga. Mas, apesar de Vicente ter um afeto pelas patroas - mais por Sá Amélia que por Sá Caetana, embora ao final, na despedida, ele a chame de mãe - a servidão se configura como obrigação em memória do pai. Em Beira, Vicente vai passar por um processo de consciência das relações sociais e raciais, proporcionado principalmente ao encenar o dr. Valdez, falecido amigo de Sá Amélia.

Com o desejo de alegrar a “Patroinha”, Vicente acaba por misturar as fronteiras raciais e sociais. Ele teria que agir como um branco e como um doutor. A partir dessa encenação, Vicente tem muito mais claramente a vivência das diferenças de tratamento que recebe como empregado e como amigo convidado. A atitude de Vicente na pele do dr. Valdez claramente perturba Sá Caetana, fazendo com que a tomada de consciência de Vicente apenas se intensifique.

A relação de Vicente com Sá Caetana é complexa, não mimetiza apenas estereótipos do colonizador opressor e do colonizado vítima. Reproduzindo o sistema de seus pais, cada um herda uma responsabilidade perante o outro. O discurso é muito mais de uma reconciliação familiar - e pode-se observar resquícios disso até hoje no Brasil, por exemplo - do que um discurso que aparta o negro das relações com o branco. Sendo assim, as fronteiras são muito mais difusas e permite que figuras como Cosme Paulino tenham um senso de orgulho na servidão, e como a preocupação que Sá Caetana tem com Vicente.

Não sejamos ingênuos de achar que esse discurso equilibra as relações entre colonizador e colonizado. Deixando as fronteiras difusas, fica mais difícil se revoltar, se insurgir contra o sistema colonial. Vicente pode saber ou intuir que Sá Caetana e Sá Amélia não são culpadas diretamente enquanto descendentes do patriarcado colonizador, mas alimentaram esse sistema, dispondo de seus privilégios. O gesto de dividir a cerveja com Sá Caetana e chamá-la de mãe na despedida, demonstra a complexificação das relações entre ambos, mas que a partir daquele momento, o país, assim como Vicente irão construir novas relações, sem o olhar patriarcal - ou matriarcal - de um sistema colonial.


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Juliet Rodrigues

Reticências, interrogações e gestos afobados.