Avalanche: o desejo de ser Outro em Manic Street Preachers

Manic Street Preachers é uma banda peculiar: é uma das poucas que conseguiu sobreviver após perder um membro-chave de sua formação. Richey Edwards, desaparecido desde 1995, escreveu grande parte das letras de um dos principais álbuns da carreira de Manics, The Holy Bible, lançado em 1994. Ele e Nicky Wire, baixista, escreveram todas as letras da banda em seus primeiros anos, desde o EP New Art Riot (1990) até The Holy Bible (1994); após o desaparecimento de Edwards, Wire tomou a responsabilidade das letras até os dias de hoje.

Existem grandes diferentes entre os estilos dos dois letristas: Edwards é cru, é violento, é desespero. Wire já é melancolia com algum tipo de conformismo. A própria musicalidade de seus versos é diferente, o que talvez seja o que obrigou a banda a sair de seu “The Clash encontra Joy Division” para um estilo musical mais original a partir do álbum Everything Must Go, de 1996, considerado o álbum mais importante da carreira da banda pelo frontman James Dean Bradfield.

Esta análise tem como foco uma canção do segundo álbum da banda (Gold Against The Soul, 1993), intitulada Life Becoming A Landslide. Sua letra é creditada tanto a Nicky Wire quanto a Richey Edwards.

Gold Against The Soul não é um álbum querido pela banda. Nicky Wire o descreve como “oco” e “triste” em uma entrevista para o The Quietus. Em uma lista comentada para Vice, James Dean Bradfield coloca o álbum como o décimo melhor álbum da banda, de uma lista de treze, embora o reconheça como uma influência importante para o processo de The Holy Bible.

Eu considero Gold Against the Soul fraco, exceto por três ou quatro músicas. Os singles são bons, num geral, embora eu acredite que pudessem ser melhores. Meus destaques são From Despair to Where, que eu acho uma música devastadora, e a música sobre a qual o ensaio se trata.

Life Becoming A Landslide não é excepcional. A melodia parece estar em vários lugares ao mesmo tempo, sem conseguir se fixar num ponto que dê harmonia. A letra, embora não seja a melhor da banda – talvez nem a melhor do álbum –, por outro lado, é interessante.

Segue a letra e uma tradução feita por mim:

Original:

Childbirth tears upon her muscleVery first second a screaming iconBabies in time barely even recogniseWords that once stroked now bruising tired lipsMy idea of love comes fromA childhood glimpse of pornographyThough there is no true loveJust a finely tuned jealousyLife becoming a landslideIce freezing nature deadLife becoming a landslideI don’t wanna be a manEveryday more numb to agonyThis the howl this the sigh of the lonelyOne day I realise oil on canvasCan never paint a petal so so delicateMy idea of love comes fromA childhood glimpse of pornographyThough there is no true loveJust a finely tuned jealousyLife becoming a landslideIce freezing nature deadLife becoming a landslideI don’t wanna be a manLife becoming a landslideIce freezing nature deadLife becoming a landslideI don’t wanna be a…My idea of love comes fromA childhood glimpse of pornographyThough there is no true loveJust a finely tuned jealousyLife becoming a landslideA mile empty insideLife becoming a landslideDesire on its kneesLife becoming a landslideA mile empty insideLife becoming a landslideDesire on its knees

Tradução:

Nascimento desgasta seu músculoPrimeiro segundo, ícone gritandoBebês no momento não reconhecemPalavras que uma vez tocaram lábios agora cansados, feridosMinha noção de amor vemDe um relance de pornô na infânciaMas não existe amor verdadeiroSó ciúme bem afinadoA vida se torna uma avalancheGelo mata natureza congeladaA vida se torna uma avalancheEu não quero ser humanoCada dia mais inerte à agoniaEste é o uivo, este é o suspiro dos solitáriosUm dia eu percebo que óleo em telaNunca pode pintar uma pétala tão delicadaMinha noção de amor vemDe um relance de pornô na infânciaMas não existe amor verdadeiroSó ciúme bem afinadoA vida se torna uma avalancheGelo mata natureza congeladaA vida se torna uma avalancheEu não quero ser humanoA vida se torna uma avalancheGelo mata natureza congeladaA vida se torna uma avalancheEu não quero ser…Minha noção de amor vemDe um relance de pornô na infânciaMas não existe amor verdadeiroSó ciúme bem afinadoA vida se torna uma avalancheVazio interno de um quilômetroA vida se torna uma avalancheO desejo de joelhosA vida se torna uma avalancheVazio interno de um quilômetroA vida se torna uma avalancheO desejo de joelhos

A letra, como todas as do início da carreira da banda, é escrita a partir de imagens que não formam um todo. A primeira estrofe se refere ao parto de uma criança; a imagem desaparece na segunda estrofe, dando lugar à ideia de amor do eu lírico, e assim por diante. A letra termina numa imagem poderosa: “o desejo de joelhos”, e é sobre este verso e “eu não quero ser humano” que eu gostaria de me debruçar.

Em muitas letras da banda existe o desejo de ser “Outro”. Em Born A Girl (This Is My Truth, Tell Me Yours, 1998), Nicky Wire escreve de um desejo de ser uma mulher:

And I wish I had been born a girlInstead of what I amYes I wish I had been born a girlAnd not this mess of a man

(Tradução:E eu queria ter nascido uma garotaEm vez do que eu souSim, eu queria ter nascido uma garotaE não essa porcaria de homem)

Em comentários sobre esta música, Wire diz que o desejo expressado nela não é o de uma pessoa transgênera, e sim de um homem que deseja ser qualquer coisa que não um homem. Consigo traçar aqui um paralelo com o verso de Life Becoming a Landslide, “não quero ser humano”, que no original usa a palavra “man” [homem]: o desejo expressado nestas letras existe porque o eu lírico se sente um outsider em sua posição como homem (tanto humano quanto do gênero masculino).

Essa sensação de ser um outsider está também em Roses In The Hospital, de Gold Against the Soul. Mas nessa letra, o eu lírico demonstra raiva e não resignação:

All we wanted was a homeNow we are so strung out we on our ownLike a leaf in the autumn breezeLike a flood in JanuaryWe don’t want your fucking love

(Tradução:Tudo o que queríamos era um larAgora estamos tão dependentes e sozinhosComo uma folha no vento de outonoComo uma enchente em janeiroNão queremos a porra do seu amor)

As duas primeiras estrofes de Roses In The Hospital descrevem atos de automutilação como algo a se fazer pelo eu lírico “querer senitr algo de valor”, justamente porque sente que não se encaixa em lugar algum.

A imagem “o desejo de joelhos” evoca uma dominação do ato de desejar. Ela pode não ter relação com as imagens dos outros versos da música, como é comum nas letras da banda. De uma forma ou outra, eu penso que a maneira do eu lírico de dominar o desejo é se tornar Outro, seja uma mulher, seja algo completamente diferente.

Poderia se sugerir que o eu lírico se utilizasse da arte para se tornar Outro, mas a própria letra de Life Becoming A Landslide se opõe a isso:

Um dia eu percebo que óleo em telaNunca pode pintar uma pétala tão delicada

Esta ideia de não pertencer se torna cume em The Holy Bible, o álbum seguinte a Gold Against the Soul.

This article was updated on 11 Agosto 2020

Daniela Moraes

Literata e lobisomem.