Comentário sobre As Fábulas Negras e a contação de lendas

As Fábulas Negras é um filme que costura curtas dirigido por diretores brasileiros que se dedicam ao gênero terror. São histórias/lendas populares que ganharam uma roupagem do terror trash, enfatizando o bizarro, a violência gráfica não realista e muito, muuuuito sangue. O fio que costura essas fábulas é um grupo de meninos que saem para brincar na mata e vão contando essas histórias, e ao final, eles acabam protagonizando uma última narrativa.

Confesso que eu sou a pedante do gênero terror. Apesar de gostar muito de histórias macabras em outras mídias, no cinema meu nível de exigência chega a me irritar… Achei o filme ruim, mas bom, já que ele se propõe a ser um filme ruim mesmo, trash, oras. Entendo que o limiar do subgênero é transitar entre o riso causado pela baixa produção e o choque da violência gráfica. Eu só ri uma vez, na primeira fábula, quando vi que por motivo nenhum um personagem praticamente explode e jorra sangue por toda parte. Mas assistir uma hora e meia disso cansa um pouco… na verdade, eu me perguntei o motivo de eu estar vendo o filme depois de transcorridos vinte minutos, porque já não tinha mais graça. Porém, fui persistente!

Meu problema é com a falta de causalidade dos fatos. O personagem vira um monstro e é isso. Então ele tem raiva e/ou fome ou o que o expectador puder imaginar, e isso faz com que ele saia matando todo mundo. Mas se você lembrar que essas fábulas estão sendo contadas por meninos de 10, 11 anos, a regra da causalidade se esvai. Me lembro de quanto eu tinha essa idade e me juntava com outros colegas para inventar estórias de assombração. Não lembro das minhas, mas me lembro de uma cheia de erotismo inocente (tínhamos 10 anos e não sabíamos nem escrever a palavra “sexo”), sobre uma casa antiga abandonada onde morou alguma figura importante da cidade. Essa história muito provavelmente não estavam de acordo com as regras da causalidade, o importante era chocar o ouvinte. E estávamos mais impressionados com o sexo, é verdade.

Mas voltando à contação de lendas, acabei me lembrando de um conto do Santiago Nazarian, “Marshmallow Queimado”, no qual um grupo de garotos inventam contos de terror a fim de aproveitarem o clima do cemitério, a fogueira e os marshmallows (e acabar tirando um sarro um do outro). O interessante é que cada personagem está inventando o conto no momento e os outros personagens vão interferindo, dando palpites, apontando erros e contradições. Os resultados das fábulas são diversos. E como o leitor tem acesso aos pensamentos dos personagens, dá pra perceber o que cada um projetou de sua personalidade ou vivência mais corriqueira naquela fábula que ele acabou de inventar.

Não dá pra dizer que isso ocorre em As Fábulas Negras. Os garotos recontam causos que ou é de conhecimento geral da comunidade local (a casa da Iara, por exemplo), ou algo que alguém contou para o personagem (o caso do primeiro curta). Porém, no caso desse primeiro menino, ele atesta que sua estória é real e a dos outros é invenção, o que motiva um “castigo” ao final do filme quando os outros meninos o prendem na casa de Iara e ele, assustado, é assombrado pelos personagens das histórias. Pensando essa cena metaforicamente, por mais que as lendas e fábulas que chegam aos nossos ouvidos sejam inverossímeis, elas nos assombram, mesmo que um pouquinho. Sei que a loira do banheiro atormentou muita gente, mesmo quem só acreditava por brincadeira; todo mundo se lembra da versão que corria na escola de cada um (e como fazer para ver a aparição).

Acho importantíssimo renovar essas lendas (as folclóricas e as locais), estimular a imaginação desenfreada da criançada, ser a pessoa que passa as versões de sua memória para a próxima geração, que vai contar conforme ela se lembra. Por mais que ela se modifique, a lenda fica viva. E pensar que um filme que eu nem gostei gerou todo esse comentário… No fim, é um filme ruim que é bom.

This article was updated on 11 Agosto 2020

Juliet Rodrigues

Reticências, interrogações e gestos afobados