Coração, Cabeça e Estômago (Camilo Castelo Branco)

Coração, Cabeça e Estômago (1862) foi escrito por Camilo Castelo Branco e segue a tradição narrativa do “manuscrito encontrado”, onde há uma moldura narrada pela pessoa que encontra a história que será contada ao leitor. Este narrador testemunha emite a história, interferindo nada ou muito pouco nela. Isso não ocorre em Coração, Cabeça e Estômago. O chamado Editor (que seria Camilo Castelo Branco) é amigo do Autor (Silvestre da Silva) da história e herda seus escritos, poemas, diários, textos de jornais e, a pedido do falecido, publica esses textos, sempre intervindo ao explicar, narrar e julgar os valores morais e literários a respeito do texto, como ele mesmo explica ao leitor.

Eu fui o herdeiro dos seus papéis. Alguns credores quiseram disputarmos, pensando que eram papéis de crédito. Fiz-lhes entender que eram pedaços de um romance; e eles, renunciando a posse, disseram que tais pataratices deviam chamar-se papelada, e não papéis.

(BRANCO, Preâmbulo)

A narrativa vai sendo completada, o manuscrito vai sendo descrito, e conforme o Editor atribui períodos em que as tais partes do texto foram escritas, ele presume que o leitor tenha conhecimento da figura que foi Silvestre da Silva. Além disso, o Editor comenta sobre cada uma das fases de Silvestre, opinando sem concessões - já que ele está morto.

Nenhum deles designa época; mas quem tiver, como eu, particular conhecimento do indivíduo, pode, sem grande erro cronológico, datar os três manuscritos.

O Coração reina desde 1844 até 1854. São aqueles dez anos em que nós vimos Silvestre fazer tolice brava. Em 1855 notamos a transfiguração do nosso amigo, que durou até 1860, época em que tu já tinhas trocado o Património da estima dos teus conterrâneos pelas lentilhas do Novo Mundo. Não viste, pois, a transição que o homem fez para o estômago, sepultura indigna das santas quimeras, que aconteceram na mocidade, e consequência funesta da má direção que ele deu aos Projetos, raciocínios e sistemas da cabeça. Podemos assinar tempo ao terceiro volume, desde 1860 até fim de 61, em que o autobiógrafo se desmanchou do que era para se arranjar doutro feitio.

(BRANCO, Preâmbulo)

Percebe-se elementos que atestam (supostamente) a veracidade dos fatos narrados. Temos datas e informações que, para quem conhecera Silvestre da Silva, seriam verificáveis. O Editor apresenta Silvestre como sendo uma pessoa histórica, e portanto, a obra que temos em mãos (Coração, Cabeça e Estômago) seria um documento verídico. O elemento que mostra que o autor implícito (Camilo Castelo Branco) se coloca como sendo o próprio Camilo é a menção à uma personagem histórica de fato logo na primeira frase do texto em diálogo: “— O meu amigo Faustino Xavier de Novais conheceu perfeitamente aquele nosso amigo Silvestre da Silva…”. Fautisno Xavier de Novais de fato existiu; foi escritor e jornalista português, cunhado de Machado de Assis. Colaborou com a revista Revista Contemporânea de Portugal e Brasil, assim como fizera o nosso escritor brasileiro e Camilo Castelo Branco.

Prossigamos: A obra que o leitor tem em mãos, é dividida em três partes intituladas respectivamente como “Coração”, “Cabeça” e “Estômago”. Silvestre age conforme os preceitos do coração (guiado pelas emoções), cabeça (guiado pela razão) ou do estômago (guiado pelas necessidades mais fisiológicas) de maneira inteira e unilateral. Silvestre da Silva mantém um tom de ironia quando narra os acontecimentos das partes “Coração” e “Cabeça”, e presumimos juntamente com o Editor que elas foram escritas quando o Autor estava já vivenciando a época seguinte, ou seja, havia um distanciamento crítico e irônico. Portanto é compreensível que ele tenha alcançado com êxito o tom satírico nas duas primeiras partes (ele só não dispõe desse procedimento estilístico ao narrar a narrativa da personagem Marcolina devido ao teor mais trágico). Dito isso, Silvestre da Silva, ao contar sobre suas peripécias, já tem um certo distanciamento e outra ideologia que rege sua vida no momento em que as escreve. Ao narrar a parte “Estômago”, Silvestre naturalmente, quer provar que este é o estilo de vida mais correto de se viver, que proporciona mais felicidade e deveria ser um modelo de vida. Nesta parte, o Editor intervém com o dado que mostra que Silvestre não pode ser um modelo, já que morreu de complicações de seus hábitos de comilança exacerbados.

Silvestre acompanhou-me aos banhos da Póvoa e já vinha com todos os sintomas de caquexia, resultante da imobilidade, e cansaço das molas digestivas. Retirou-se para a província logo que os primeiros banhos e as primeiras perdas ao jogo lhe molestaram o corpo e o espírito. De lá me escreveu, contando os progressos da cabeça da doença e prognosticando o seu próximo fim. Nesta carta prometia o meu amigo legar-me os seus papéis, com plena autorização de divulgá-los, se eu visse que podiam ser de proveito para a iniciação da mocidade. À maneira do moralista Duclos, dizia ele: “J’ai vécu, je voudrais être utile à ceux qui ont à vivre.

(BRANCO, O editor ao respeitável público)

O Editor compreende que Silvestre - tendo a ingenuidade de um “bom selvagem”, como sugere seu nome - não soube mesclar as três diferentes forças para guiar sua vida. O intuito da publicação de tais textos sugere que o Editor acredite de alguma forma que eles servem de educação pelo contra-exemplo aos jovens. Isso pode ser um dos motivos pelos quais ele tenha optado por editar as memórias do amigo. Mas particularmente prefiro a motivação de pagar a dívida aos credores - diga-se de passagem, prevista para ser plenamente liquidada quando o livro chegar à 10ª edição.

Percebemos então que o Editor ao comentar, desmentir, acrescentar informações, narrar acontecimentos correlacionados e criticar o texto, tem um papel bem mais participativo na feitura da obra final que temos em mãos. Isso cria níveis de narração muito interessantes, colocando o processo do Editor como parte primordial da obra enquanto ficção.

Bibliografia:

BRANCO, Camilo Castelo. Coração, cabeça e estômago. Texto-Fonte: 2 ed. Lisboa: Publicações EuropaAmérica, LD.

Você pode adquirir boas edições da obra pela editora Martins Fontes (aqui) e pela editora Ateliê (aqui).

This article was updated on 11 Agosto 2020

Juliet Rodrigues

Reticências, interrogações e gestos afobados