Entre loucura e lucidez em Innsmouth: uma análise de H. P. Lovecraft

No início de sua obra crítica O horror sobrenatural em literatura, H. P. Lovecraft propõe a noção de que o mais poderoso sentimento da humanidade é o medo; o medo do desconhecido, em especial: O desconhecido, sendo também o imprevisível, tornou-se, para nossos ancestrais primitivos, uma fonte terrível e onipotente das benesses de calamidades concedidas à humanidade por razões misteriosas e absolutamente extraterrestres, pertencendo, pois, nitidamente, a esferas de existência das quais nada sabemos e nas quais não temos parte. (p. 14) Este parágrafo pode, pois, ser uma das maneiras de definir o conceito de terror cósmico presente na obra do autor estadunidense, onde também se encaixa a novela aqui analisada, A sombra de Innsmouth. O universo criado pelo autor é essencialmente caótico: apresenta um cosmo indomável, desconhecido em muitos aspectos, e ainda hostil em relação à humanidade. O terror cósmico quebra o antropocentrismo e joga os personagens em um mundo que insiste em sua insignificância em relação a ele, onde se vê apenas como mais um ser submisso às ações imprevistas da natureza violenta. Neste cenário, o medo geralmente evolui de uma curiosidade talvez ingênua, incredulidade até, como veremos no caso do narrador da obra, e então passa para a ruína, a loucura que destrói o indivíduo após seu contato direto com as forças malignas que o cercam. A característica caótica do terror cósmico confere a exterioridade da ameaça em relação ao sujeito, tornando o mundo em que pisa, aparentemente tão conhecido antes, um elemento que o persegue, que dá chão às suas descobertas – ou delas o tira, uma vez que em alguns casos o personagem pode ser incapaz de discernir a realidade de um delírio. Essas ideias apresentadas são a base de A sombra de Innsmouth, que se inclui em uma célebre criação do autor, o Chthulu Mythos, que pode ser considerada uma “contra-mitologia”, espécie de paródia das antigas religiões humanas. Nenhum dos entes de tal mito é na verdade um deus, e sim alienígenas com poderes superiores à humanidade, que os homens, em sua ignorância, tomam como deuses, seja por pactos ou por temor à destruição. O ambiente da novela, Innsmouth, é introduzido na obra do autor pelo conto Celephaïs (1920), onze anos antes do surgimento da obraque explora a história do vilarejo. Não é de nosso interesse explorar as conexões de A Sombra de Innsmouth com outros trabalhos de Lovecraft, nem pormenorizar seu estilo de escrita. Analisaremos sobretudo inicialmente a maneira em que o caos se põe na história, o horror mais direto proposto pelo autor. Depois disso, sobre suas consequências, investigaremos a loucura do protagonista-narrador e seu efeito sobre o desfecho da narração. Partiremos por um ponto de vista “desmistificado”, acompanhando e incorporando a incredulidade inicial do protagonista da novela, vendo, então, sua evolução ao momento em que descobre a realidade e, por suas consequências, enlouquece. A história contada é de Robert Omstead, um jovem que viaja pela Nova Inglaterra para apreciar os pontos turísticos e descobrir mais sobre a própria família. A fim de ir até a cidade de Arkham, em Newburyport, o personagem descobre a existência de Innsmouth, “refúgio das sombras”, um vilarejo portuário que não é citado pelos mapas da região. Por intermédio de um funcionário da estação rodoviária, Robert descobre um pouco da história do tal vilarejo, dito estar “jogado às traças nos últimos cem anos”. A narração do homem mostra um lugar repleto de lendas, as quais as pessoas falam “quase sempre aos cochichos”. Pelas características em relação a Innsmouth citadas pelo homem, a primeira coisa que podemos pensar é que as lendas e boatos surgiram não só pelo grande isolamento geográfico do local – rodeado por pântanos – como também por alguns fatos envolvendo o recife próximo a seu litoral e “alguma doença estrangeira” que dizimou mais da metade da população. O funcionário alega que o motivo de todo o nojo que as pessoas sentem em relação a Innsmouth é “simplesmente um preconceito racial”, o que cria a proposição de que a razão de “as pessoas de lá sempre tenta[rem] esconder o sangue que trazem nas veias” (p. 27) seja a presença de uma genealogia estrangeira, o que pode ser reforçado pela posição portuária do vilarejo. Aqui Lovecraft introduz um segundo conceito que acompanha a presença do caos em seus escritos: a presença do mal no outro indivíduo, Outro que muitas vezes tem origem estrangeira, seja de forma explícita em sua nacionalidade, seja em sua etnia – especialmente o segundo caso, que confere o forte traço racista sobre a qual se apoia a obra do autor. Os habitantes de Innsmouth têm uma aparência específica, descrita como algo repugnante pelo narrador e outros personagens, e muitas das características do vilarejo, negativas em sua maior parte, são ditas de origem sobretudo oriental – ainda que “quase extraterrestres”, como a peste de 1846 e a tiara exibida na Sociedade Histórica de Newburyport. Talvez pelo tom de ceticismo que o funcionário da estação apresenta em relação às lendas, o narrador resolve ir para Innsmouth por seu cenário, para fins turísticos, como um curioso. Robert compartilha do sentimento de incredulidade do outro homem e essa pode ser considerada uma das razões de sua estada em Innsmouth, apesar dos olhares desconfiados dos habitantes do vilarejo. Se acreditasse nas histórias contadas pelo homem ou se visse de outra forma as suspeitas que as pessoas demonstravam por seu interesse em relação ao vilarejo, não se daria a chance de subir ao ônibus de Sargent; ou quem sabe ainda fosse até lá, ainda que sentisse medo, para averiguar que eram apenas lendas e ter certeza de que sua esfera da realidade permanece imperturbável – e essa hipótese não pode ser descartada por seu ceticismo, uma vez que Robert parece querer acreditar, o que é provado por suas constantes negações e crescente paranoia no decorrer da história. A primeira vista que o protagonista tem de Joe Sargent, o motorista do ônibus que o levará a Innsmouth, causa repulsa. Alega ser “natural” o nojo que os habitantes de Newburyport sentem dele e descreve minuciosamente todas as características físicas extravagantes do homem, sem no entanto querer “arriscar um palpite” quanto à sua descendência estrangeira e, ainda: “Quanto a mim, a primeira ideia que me ocorreu foi a de degeneração biológica”. Essa ideia de degeneração é mostrada durante a obra inteira, seja em relação aos habitantes de Innsmouth, seja em relação à sua arquitetura, que é, aliás, uma das coisas mais observadas pelo narrador: as construções da cidade têm seu espírito, são misteriosas e decrépitas, são olhos que observam Robert quando ele se encontra sem a companhia dos humanos locais. Assim como esse “espírito de Innsmouth” das construções, o mar é outro elemento onisciente da narrativa, e sua influência nos pensamentos e sensações do personagem é, de certa forma, decisiva: (…) E, mar adentro, apesar da maré alta, vislumbrei uma extensa ilha negra que mal se erguia acima da superfície, mas sugeria uma estranha malignidade latente. Aquele, como eu bem sabia, deveria ser o Recife do Diabo. Enquanto eu observava, um curioso fascínio pareceu acrescentar-se à macabra repulsa; e, por mais estranho que seja, esta nota sutil pareceu-me ainda mais perturbadora do que a impressão inicial.
(p. 43) O mar, na obra, tem uma dupla metáfora: ao mesmo que tempo que é a “sereia”, o ente que levou os habitantes do vilarejo a fazerem o pacto com os seres das profundezas em busca de riqueza, é também um aliado dessa natureza ameaçadora de Lovecraft: há um universo completamente diferente nas águas profundas, inexploradas, e sua vastidão quase infinita também pode gerar um sentimento de impotência. Seu som e seu cheiro acompanham o personagem durante toda a narrativa, assim como a figura do Recife do Diabo, a “porta do inferno” que Robert presencia enquanto esteve no vilarejo. A descrença de Robert quanto às lendas locais leva seus mistérios para o limiar entre o natural e o sobrenatural. Grande parte da narrativa do início de sua visita a Innsmouth se foca em mostrar a diferença entre os hábitos daqueles sujeitos para com os dos arredores, e a constante inquietação em que o personagem se refere – a impressão de ter visto alguém passar pelo porão da igreja, a “concepção momentânea de pesadelo” pode muito bem ser vista como uma influência das palavras do funcionário da estação e pode ser usado para justificar a negação constante que faz a tudo até o primeiro momento em que se vê perseguido por criaturas não-humanas. No entanto, mesmo que os habitantes de Innsmouth sejam “completamente humanos” no início, o protagonista ainda se sente ameaçado naquele local, especialmente pela aparência dos residentes e seus costumes – a religião em especial, a qual se refere como um “culto depravado”. As duas coisas somadas, tendo a primeira um peso maior, leva o narrador a se sentir já sem controle em relação ao que o cerca – mas não arrependido, já que, apesar de procurar um “local seguro” com pessoas que “não sejam nativos”, sua principal motivação foi a busca de um mapa para poder andar pelas redondezas. Aqui começamos a perceber que mesmo que ele comece a sentir medo e esse sentimento cresça ao longo da história, a única coisa que ele parece fazer é aumentar ainda mais sua curiosidade, como se desafiasse sua descrença, agora um pouco menor, uma vez que Robert tem que se certificar todo o tempo que aquilo é só “paranoia”. E foi movido por um quase-medo e curiosidade – “o demônio da obstinação”, diz – que Robert buscou Zadok Allen, velho de aparência “normal” que seria o único capaz de lhe fornecer informações sobre vilarejo. O mesmo garoto da mercearia que falou de Allen também foi uma fonte de informações sobre os costumes dos habitantes locais – especialmente em relação à religião, dando uma vaga noção de suas festividades e a vestimenta dos sacerdotes. Além dos detalhes sobre a religião do vilarejo, o garoto também fala de Marsh, o dono da refinaria que sustentava a cidade, e sua família, descrevendo-os com “deformidades físicas” e “aspecto reptiliano”, além de também mencionar um tesouro pirata ou pactos demoníacos, que reforçam ainda mais a paranoia de Robert. É, mais tarde, em Zadok Allen que vemos mais um dos temas recorrentes em Lovecraft: o paradoxo de loucura-lucidez. Pelas lentes de Robert, do garoto da mercearia e do funcionário da estação de trem, que acreditam que os habitantes de Innsmouth são “pessoas normais” com doenças ou hereditariedade estrangeira, o velho Allen não passa de um homem louco, o criador da maior parte das lendas do local, influenciado pelo suposto tesouro que o capitão Obed encontrou no recife. Allen é apresentado como um senhor alcoólatra, “com uma forte tendência a filosofar por meio de máximas interioranas” (p. 61). Após algumas doses de uísque ele conta ao protagonista toda a história relacionada às lendas de Innsmouth, desde o tesouro “pirata”, o pacto com as criaturas marítimas e a “peste”, junto de suas consequências. Em um momento, enquanto descrevia o primeiro contato do capitão com as criaturas, Allen menciona que “talvez elas tenham dado origem às histórias das sereias e a outras parecidas”. Aqui vemos outra vez uma comparação a sereias, mais direta e em contexto semelhante da relação do narrador com o recife. Talvez com a descoberta daquela forma de vida e das promessas de riqueza e imortalidade do pacto Obed tenha enlouquecido a ponto de dizimar a parte da população do vilarejo que discordava com aquilo – o que também pode ser uma forma de deixar “puro” o lugar, a fim de que os novos deuses não os punissem pelos descrentes. Apesar de se sentir aterrorizado pela narração do velho Zadok, o protagonista ainda parece não se deixar acreditar na história, coisa que analisaremos com mais atenção adiante. Tinha consciência de sua “não-veracidade”, porém a maneira em que a narração foi contada foi o que teve maior efeito sobre ele. Aqui o que vemos pode ser na verdade uma maneira de se privar da insanidade: o personagem pode estar começando a realmente acreditar no que ouviu, a ponto de nos momentos seguintes de deixar a conversa, dar ouvidos a detalhes aparentemente insignificantes do que acontece a seu redor – o ônibus casualmente quebrado, pessoas olhando para ele enquanto entra no hotel para passar a noite e pequenos barulhos próximo do quarto. Nesse último momento, antes que finalmente deixa romper sua descrença, suas negações são cada vez mais desesperadas e elas seguem até o final, até todo o episódio terminar e ele se ver nos trilhos de trem na manhã seguinte, após um desmaio ao observar a criaturas não-humanas seguindo na direção do mar. Mesmo que seus olhos tenham presenciado tudo e que o peso da realidade comece a incomodar, Robert nega até não mais suportar o incômodo; e talvez exatamente por isso seu pesadelo não termina aí: a viagem até Arkham – seu objetivo inicial, a fim de descobrir mais sobre a própria família, o leva à insanidade. Ele se descobre ser parte daquilo que mais lhe trouxe repulsa e horror, e a cada dia se vê se transformar em alguém com a “aparência de Innsmouth”. Vemos, então, mais um elemento caótico relacionado à obra de Lovecraft: o Passado. É desconhecido, totalmente alienado dos personagens e é capaz de amaldiçoá-los, trai-los, como no caso de Robert Omstead: ele entra em contato com um mal aterrorizador, acima de qualquer outra coisa que pudesse esperar, e como se a insanidade resultante disso não fosse o suficiente, ele se descobre parte de tal mal. E sua mente, sem suportar, o faz escolher entre a morte e a redenção ao destino – sendo o segundo a alternativa vencedora: sua herança genética o condicionou àquela sina e ele não pode fugir dela. A respeito da herança genética do protagonista e sua relação com ela, há uma ideia na obraque até aqui não comentamos: em muitos momentos da narração, Robert se refere a uma “pseudo-memória” enquanto vaga pelas ruas de Innsmouth, algo que ao mesmo tempo o aterroriza e o deixa ainda mais curioso, como se essa reminiscência o dissesse de alguma forma que era em Innsmouth que também encontraria informações de sua genealogia, mesmo que de início ele não tenha percebido o fato. Isso fica evidente também nas palavras de Zadok Allen, ao sugerir que o narrador tem semelhanças com o capitão Obed. Podemos também interpretar essa “pseudo-memória” como mais um elemento de sedução em relação ao vilarejo: seu inconsciente parece saber que ali é onde vai encontrar informações sobre si próprio, mas seu consciente perece apenas querer saber de onde vem tal reminiscência, uma vez que a atmosfera do lugar e as palavras das pessoas sobre o ambiente parecem ter efeito maior sobre seus nervos amedrontados. Robert, então, não percebe o que é aquilo até que seja tarde demais: seus sonhos confirmam seu parentesco com as Criaturas Abissais e revelam segredos a ele, chamando-o para que cumpra seu destino. Em breve, sua imagem no espelho o mostra efetivamente com a “aparência de Innsmouth”. Acabamos de traçar a representação mais imediata do Mal na novela de Lovecraft. A partir de agora veremos seus desdobramentos e uma possível interpretação do desfecho a partir deles, diferente do insinuado diretamente pela narrativa do escritor. “Toda racionalidade tende a minimizar o valor e a importância da vida, e a diminuir o montante de felicidade humana”¹ é o que diz Lovecraft a respeito de seus desfechos, e é também o que vemos em A sombra de Innsmouth: as palavras de Omstead antes mesmo de começar seu relato da viagem já mostram a instabilidade em que se encontra, e nas últimas páginas do livro, antes de se render aos sonhos que tivera, menciona o suicídio como alternativa. Os desdobramentos da realidade caótica sobre o personagem é clara: o mundo conhecido se despedaça ao seu redor, dando lugar aos diversos quadros do desconhecido ou do ameaçador. O personagem se vê desprotegido, deslocado – tem conhecimento de forças incomparavelmente mais poderosas, está impotente – e a angústia que isso gera ao mesmo tempo rouba sua lucidez e a aguça: agora ele tem noção do quão brutal o mundo é. Em razão disso podemos ver duas interpretações para o desfecho do livro: a primeira é que Robert realmente faz parte do mal que o cerca e se rendeu a ele, voltando para Innsmouth. A segunda é que nada do que aconteceu após sua saída do vilarejo é real e tudo o que é narrado a respeito de sua família, cotidiano e sonhos foi um delírio. Essa segunda interpretação não tira crédito dos efeitos do terror cósmico sobre o indivíduo, pode, pelo contrário, sublinhá-los. O delírio pode ter se iniciado ainda em sua visita a Innsmouth, especialmente após as palavras de Zadok Allen: Robert abandonou o lugar em que estavam conversando extremamente transtornado, o que ocasionou no aumento de sua paranoia, que chegaria ao ápice antes de revelar uma perseguição verdadeira: Mal posso descrever o efeito deste horripilante episódio sobre o meu estado de espírito – um episódio a um só tempo desvairado e lamuriante, pavoroso e grotesco. O garoto da mercearia havia me dado o alerta, mas ainda assim a realidade deixou-me confuso e perturbado. Por mais pueril que a história parecesse, a sinceridade e o horror insanos de Zadok haviam me inspirado uma crescente inquietude, que se juntava ao meu velho sentimento de asco pelo vilarejo e pela maldição das sombras intangíveis. (p. 79) Essa “confusão e perturbação”, unidas ao medo antes e durante a perseguição, podem ter alimentado sua imaginação no momento em que viu – ou imaginou ver – a horda de criaturas irem em direção ao mar. O cenário também conta com o outro fator, a noite escura, que narrativamente é muitas vezes utilizada para dar às coisas aparência que não têm. Ele próprio, aliás, considera refutar a visão: “Que olhos humanos possam mesmo ter visto, na substância da carne, o que até então o homem só havia conhecido em devaneios febris e lendas fantasiosas?” (p. 109). Essa ideia também pode ser reforçada pelo desmaio do personagem naquele momento, acordando na manhã seguinte quase sem pistas do que aconteceu– não havia traços de alguma presença recente além dele ali, e o odor osteícte havia desparecido. Robert então decide finalmente ir até Arkham para seus apontamentos genealógicos e a partir daí narra as suas descobertas de que faz parte da “linhagem de Innsmouth”. Como o já proposto, essa parte da narração pode ser considerada um delírio do personagem, ainda afetado por sua alucinação e palas palavras de Zadok Allen: apesar de nada daquilo ser real – de não haver um pacto com as criaturas das profundezas, ou “deuses”-alienígenas imensamente mais fortes que a humanidade – ainda há uma ameaça presente em Innsmouth, em seus hábitos e pessoas, que tanto saem da zona de conforto do protagonista para fazê-lo se tornar como se apresenta no início e fim da obra. Isso fica claro no quanto frisa certos aspectos de sua família: a aparência assustadora da avó, o suicídio do tio, e presença do nome “Marsh” na família. Seu relacionamento com a avó – o quanto ela o apavorava, aliás, pode ser a origem de toda a sua “pseudo-memória” enquanto visitava Innsmouth, um ingrediente a mais para o terror que lá presenciou. Apesar de todas essas “provas”, alimentadas ainda mais pela relíquia deixada por sua bisavó e o suicídio de seu tio, a consciência de Robert parece se recusar a ceder: Deste dia em diante a minha visa tem sido um pesadelo de meus augúrios e apreensão, e já não sei mais quanto é uma verdade horrenda e quanto é loucura. A minha bisavó tinha sido uma Marsh de linhagem desconhecida casada com um homem de Arkham – e Zadok não havia dito que a filha de Obed Marsh com uma esposa monstruosa tinha se casado com um homem de Arkham graças a alguma artimanha? O velho beberrão não havia balbuciado alguma coisa sobre a semelhança dos meus olhos e os do capitão Obed? Em Arkham, o curador também me havia dito que eu tinha olhos dos Marsh. Então Obed Marsh era o meu próprio trisavó? Quem – o quê – era então a minha trisavó? Mas talvez tudo não passe de loucura. Não seria nada estranho se os ornamentos de ouro esbranquiçado tivessem sido comprados de algum marinheiro de Innsmouth pelo pai da minha bisavó, quem quer que tenha sido. E talvez os olhos arregalados no rosto da minha avó e do meu tio suicida não passem de fantasias de minha imaginação – a mais pura fantasia exacerbada pela sombra de Innsmouth, que pinta meus devaneios em cores tão escuras. Mas por que o meu tio teria cometido suicídio após uma viagem de cunho genealógico à Nova Inglaterra? (p. 116) Seu discurso neste trecho e nos seguintes mostra que, independente de sua relação genealógica com os monstros marinhos for verdadeira ou não, ele está preso: a cada dia se vê mais paranoico, mais delirante em relação ao que viu ou pensou ter visto no vilarejo, mais ainda por não ter certeza de nada; e mesmo se tudo for invenção de sua mente, a nova insegurança em relação ao mundo ao redor, resultante na loucura, o impediria a voltar à rotina normal. Vendo-se perseguido até em sonhos, Robertse vê contaminado pela monstruosidade de Innsmouth a ponto de seu delírio o fazer se transformar em um daqueles seres. Seguindo essa interpretação, ele acaba de fato se suicidando: seus sonhos, o ápice da loucura, levam-no de volta a Innsmouth em direção ao mar, em busca de respostas a respeito do que presenciou e do que lhe foi dito nos sonhos. A decisão, independentemente do resultado, põe fim a seu sofrimento: se for realidade, ele segue seu destino junto das Criaturas Abissais; se for ilusão, a morte o livra de sua loucura. Vale mencionar que nenhuma das duas hipóteses é heroica: na primeira, o personagem se une ao mal ameaçador à humanidade e, na segunda, livra apenas a si próprio dele. Como o típico da obra lovecraftiana, os personagens são quase “descartáveis”, utilizados apenas para apresentar a impotência humana frente ao universo que é indiferente ao que o habita. Como conclusão, podemos dizer que independente da esfera em que a novela de Lovecraft é analisada – no natural ou sobrenatural – a representação do universo caótico e seus desdobramentos sobre o indivíduo não se esvai: o contato com o outro desconhecido, em uma ideia intrinsecamente racista, ainda compromete seriamente a sanidade do personagem, a ponto de seu sentimento de “ser invadido” se transfigura em uma contaminação que o torna parte do outro, algo que o aliena do controle de si próprio. Tal alienação permanece e é ainda mais feroz sob lentes sobrenaturais: o personagem não só não teve controle sobre os efeitos do que presenciou como também não pôde prever os desdobramentos de sua genealogia sobre si. Sendo parte do mal que repudia, a morte ou ceder ao que lhe foi condicionado são as únicas alternativas que, no entanto, não necessariamente o salvam do novo universo em que foi inserido.

  • “All rationalism tends to minimalise the value and the importance of life, and to decrease the sum total of human happiness. In some cases the truth may cause suicidal or nearly suicidal depression.” (Lovecraft apud Houellebecq; José Gil, p. 16. Tradução minha)

Bibliografia: LOVECRAFT, H. P. A Sombra de Innsmouth. São Paulo: Hedra, 2010. LOVECRAFT, H. P. O Horror Sobrenatural em Literatura. São Paulo: Iluminuras, 2007. GIL, José. H. P. Lovecraft – Um Ícone da Cultura Ocidental Contemporânea. Tese. Wikipedia: The Shadow Over Innsmouth http://en.wikipedia.org/wiki/The_Shadow_Over_Innsmouth (último acesso em outubro de 2012) The Temple of Dagon http://www.templeofdagon.com (último acesso em setembro de 2012)

Você pode comprar A sombra de Innsmouth por este link, e O horror e sobrenatural em literatura aqui. Fonte da imagem de cabeçalho: Man of Bronze

This article was updated on 11 Agosto 2020

Daniela Moraes

Literata e lobisomem.