Entre o saudável e o patológico em A Loucura Entre Nós

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Todos que nascem têm dupla cidadania, no reino dos sãos e no reino dos doentes.

Susan Sontag

No artigo O que é uma normatividade vital? Saúde e doença a partir de Georges Canguilhem, Vladimir Safatle comenta as noções de normalidade e patologia na medicina pelo viés filosófico:

(…)por trás das mudanças e redefinições do que está em jogo na partilha entre normal e patológico, encontramos um problema vinculado à maneira com que a razão moderna determina a articulação entre vida e conceito, entre ordem e desordem, entre norma e erro. Uma grande parte do trabalho canguilhemeano de historiador das ciências está ligada à tentativa de demonstrar como as decisões clínicas a respeito da distinção entre normal e patológico são, na verdade, um setor de decisões mais fundamentais da razão a respeito do modo de definição daquilo que aparece como seu Outro (a patologia, a loucura etc.).

(SAFATLE, p 14)‌‌

A partir desta reflexão, proponho pensar como o filme A Loucura Entre Nós evidência a fronteira entre normalidade e patologia por meio dos espaços.

O documentário A Loucura Entre Nós, dirigido por Fernanda Fontes Vareille (2016), é uma adaptação livre do livro homônimo do médico psiquiatra Marcelo Veras, fruto de sua tese de doutorado. Vareilles vai observar e conversar com pacientes internos e ex-internos do hospital psiquiátrico Juliano Moreira, na cidade de Salvador, e da ONG Criamundo, situada dentro do hospital.

O filme se inicia com a câmera focando uma cancela de modo a dividir a tela no meio: esquerda e direita. Ao fundo pode-se ver o guarda saindo da guarita para levantar a cancela. Essa cena já estabelece uma divisão do espaço no quadro: o lado de dentro do hospital (esquerda do quadro) e o lado de fora (direita do quadro. Na cena seguinte, a câmera está posicionada na altura da fechadura de uma porta de correr, registrando-a sendo aberta por um funcionário, também evidenciando a simetria na tela, mas aqui já estabelecendo a diferença de profundidade do quadro: dentro e fora. A cena seguinte é um plano aberto onde vemos a fachado do hospital Juliano Moreira, também de modo simétrico, com três mastros no centro da tela: a bandeira do estado da Bahia à esquerda, a bandeira do hospital à direita e a bandeira do Brasil no centro. Na próxima cena, a câmera está no alto de uma pequena escada, filmando uma espécie de antessala. Há uma prateleira que funciona como aparador e três cadeiras: duas de plástico e uma cadeira azul de rodinhas. A sala tem acesso à direita e à esquerda. No fundo, há um portão de ferro, fechado.

Nesta mesma cena, uma mulher de branco passa da esquerda para a direita, atrás desse portão, vestindo uma camisola branca e descalça. Ela diz algo inteligível. Logo depois, um homem mais jovem faz o mesmo percurso, mas sentado. Em seguida, duas mulheres entram em cena, cada uma por um lado. Vestem bermudas brancas e camisetas coloridas, uma delas segura uma bolsa. Param no portão e chamam alguém. A mulher de cabelo solto chama “ei!”, e a de cabelo preso canta uma versão de Hey Jude em português. A mulher de cabelo solto acompanha a outra depois de alguns versos até que ela decide seguir pelo lado oposto ao qual chegou. A mulher de cabelos presos tenta chamar alguém do outro lado do portão. Uma outra mulher atravessa a antessala, vê a interna mas continua seu caminho. Funcionários da limpeza atravessam o corredor atrás do portão e a mulher de cabelos presos os acompanha. Surge o letreiro com o nome do filme: A loucura entre nós.

Este plano não mantém a simetria dos dois anteriores. No centro da tela está a cadeira de rodinhas azul encostada na parede junto à prateleira. As pessoas que passam atrás do portão ficam mais à direita dp quadro. Além da ligeira falta de simetria, a cena estabelece uma relação de profundidade espacial: o espaço dos internos como o espaço da loucura. É o espaço mais afastado, separado pelo portão de ferro, trancado à chave. O espaço intermediário seria a antessala, onde os funcionários passam, mas não ficam. Em momentos mais à frente, vemos que esta antessala também recebe familiares dos internos. Neste momento, a transitoriedade das pessoas sãs neste espaço é evidenciado pela disposição das cadeiras.

Quando os créditos iniciais somem, uma funcionária do hospital que está atrás do portão chama por Edilson. Mais dois funcionários aparecem e Edilson surge na tela, pega as chaves na prateleira e abre o portão, possibilitando o trânsito do espaço dos internos para a antessala.

Este início de mais ou menos três minutos apresenta essa relação fronteiriça entre a loucura e a sanidade através dos espaços físicos coercitivos. Neste momento a delimitação é muito bem marcada. Mas conforme o filme avança, temos outros níveis de complexificação dessa linha, cada vez mais tênue. Acompanhamos os internos, com diversos comportamentos, uns mais lúcidos que outros; mas a pergunta “o que é loucura?” acaba reverberando na figura de Leonor, desde as primeiras conversas até seus momentos de crise. Leonor é artista plástica e carrega em sua trajetória o estereótipo do artista louco que é genial. Visto que a equipe do filme a acompanhou por quatro anos, fica evidente que a loucura não enseja uma criatividade em si. Sobre esse estereótipo, Susan Sontag diz que:

O ponto de vista romântico é que a doença exacerba a consciência. Antes, a doença era a tuberculose; agora, a loucura é tida como capaz de levar a consciência a um estado de esclarecimento paroxístico. A romantização da loucura reflete, da maneira mais veemente, o prestígio contemporâneo do comportamento irracional ou bruto (espontâneo), o prestígio daquela mesma paixão cuja repressão foi vista, no passado, como causa da tuberculose e hoje é tida como causa do câncer.

(SONTAG, Doença como metáfora)

Há outros tipos de fronteiras que o filme evidencia: a fronteira da câmera nos planos fixos, onde só temos acesso ao que está dentro do quadro; as intromissões de pacientes durantes as entrevistas; sons, gritos, falatórios, que vão sempre adentrando o espaço delimitado pela câmera; disputas de foco quando a câmera se movimenta muito próxima aos internos. A loucura como excesso, como uma certa liberdade perante regras de comportamento (a quebra dos limites), mas que cobra autocontrole e a possibilidade de viver de modo autônomo (a disciplina).

Os transtornos psiquiátricos são patologias que precisam de tratamento contínuo. Recursos de caráter urgente, como a internação, evidenciam uma faceta de como a sociedade lida com esses pacientes. Quando o paciente é reinserido na sociedade, ele não está curado. Assim, a loucura fica na fronteira da relação normalidade vs. patologia, com quadros de maior ou menor qualidade de normalidade ou de patologia, e não como cura ou doença. É como se, segundo a epígrafe que abre este texto, o paciente tivesse transitando pelos dois reinos, o da saúde e o da doença, sem fixar residência em nenhum dos dois.

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Bibliografia:

A LOUCURA ENTRE NÓS. Direção de Fernanda Fontes Vareille. Produção de Fernanda Fontes Vareille e Amanda Gracioli. Salvador: Águas de Março Filmes, 2016. (76 min.).

SAFATLE, Vladimir. O que é uma normatividade vital? Saúde e doença a partir de Georges Canguilhem. Revista Scientiæ Zudia, São Paulo, v. 9, n. 1, p. 11-27, 2011.

SONTAG, Susan. Doença como metáfora/ AIDS e suas metáforas. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. Você pode adquirir a obra neste link: https://amzn.to/39mmMe4

VERAS, Marcelo. A Loucura Entre Nós: Uma Experiência Lacaniana no País da Saúde Mental. Editora Contra Capa. 2014.

This article was updated on 11 Agosto 2020

Juliet Rodrigues

Reticências, interrogações e gestos afobados