Gregório de Matos e o barroco brasileiro

Análises Mar 18, 2020

Trabalhar com a obra de Gregório de Matos nos faz esbarrar a todo momento com a problemática da autoria e da tradição literária. De fato, não houve registros manuscritos sobreviventes de seus poemas e o que temos são códices reunidos sob seu nome numa duvidosa seleção. A tradição literária tentou separar o que seria de fato de autoria do poeta e o que seria de seus contemporâneos, associados à sua obra por diversos motivos. O que críticos como João Adolfo Hansen apontam é que, sendo o material vasto em quantidade e em diversidade temática e formal, tentar separar o que seria de autoria de Gregório de Matos é uma tarefa que está fadada ao fracasso, já que não existe sequer um texto parâmetro e o critério de qualidade adotada é por demais subjetivo.

O que se sabe da pessoa histórica de Gregório de Matos já corrobora para que a obra de sua suposta autoria fosse diversificada. Feitos seus estudos em Coimbra, onde o poeta tomou conhecimento da poesia europeia do período, ao voltar para o Brasil viajou pelo recôncavo baiano e assimilou em seus poemas a oralidade, os temas e as formas populares dos jograis. Como se vê nos códices que reúnem seus poemas, há de sonetos à glosas, da poesia lírica à pornográfica, temas religiosos e maledicência a todos os estratos sociais, inclusive o clero. Além disso, era comum o poeta do período utilizar versos ou até mesmo estrofes de outro poeta, indicando filiação e seu bom gosto. Não há o conceito de plágio. E ainda deve se lembrar que essa poesia é oral e, portanto, “(...) eram, muitas vezes, transcritos em folhas avulsas; outras, memorizados, sendo copiados em novas folhas ou reproduzidos na oralidade, produzindo-se variantes transcritas, por sua vez, em outras folhas avulsas ou novamente reproduzidas por novos agentes na oralidade.”  (HANSEN p. 40)

Outro aspecto crucial de se apontar é a classificação do que seria a literatura do período Barroco.

“Para que a definição e o uso do termo fossem pelo menos aceitáveis, seria necessário que características ditas “barrocas” especificassem todas as obras de uma série determinada e apenas a elas; no entanto, as séries classificadas como “barrocas” são bastante diversas e diferentes de lugar para lugar, de autor para autor, e, principalmente, de uma arte para outra e mesmo de obras para obras de um mesmo autor, de modo que características formais propostas como específicas de “barroco”, quando a noção se aplica às representações do século XVII, não passam de generalidades formuladas como deduções e analogias – informalidade, irracionalismo, pictórico, fusionismo, contraste, desproporção, deformação, acúmulo, excesso, exuberância, dinamismo, incongruência, dualidade, sentido dilemático, gosto pelas oposições, angústia, jogo de palavras, niilismo temático, horror do vácuo – que explicitam mais as disposições teórico-ideológicas dos lugares institucionais que as aplicam que propriamente a estrutura, a função e o valor históricos dos objetos a que são aplicadas, na medida mesma em que, sendo genéricas, como resultados de esquemas universalizados a-criticamente sem fundamentação empírica, também poderiam ser aplicadas a qualquer outra arte de qualquer outro tempo.” (HANSEN p. 18-19)

A conceituação romântica, que procurou aplicar tais características à produção artística do final do século XVI ao XVII - desde que Heinrich Wölfflin usou o termo em 1888 para designar alguns estilos nas artes plásticas - perdurou ao longo da tradição literária. De fato, há uma busca dos artistas dito barrocos pelos preceitos artísticos-intelectuais das poéticas de Cícero e Quintiliano e da Retórica de Aristóteles, difundidas no período. E não há como negar que o contexto da Reforma e Contra-Reforma influenciou a representações artísticas. Mas esses aspectos são insuficientes para determinar características formais ou temáticas que seriam próprias da literatura barroca, quiçá da brasileira, muito menos da obra atribuída a Gregório de Matos.

Dentre esta vasta e diversificada obra, destaco dois poemas satíricos-eróticos, um soneto e uma glosa, para fins de análise e comparação.

Desaires da formosura com as pensões da natureza ponderadas na mesma dama.

Soneto

Rubi, concha de perlas peregrina,
Animado cristal, viva escarlata,
Duas safiras sobre lisa prata,
Ouro encrespado sobre prata fina.

Este o rostinho é de Caterina;
E porque docemente obriga, e mata,
Não livra o ser divina em ser ingrata,
E raio a raio os corações fumina.

Viu Fábio uma tarde transportado
Bebendo admirações, e galhardias,
A quem já tanto amor levantou aras:

Disse igualmente amante, e magoado:
Ah muchacha gentil, que tal serias,
Se sendo tão formosa não cagaras!

Sendo uma forma fixa, o esquema de rimas é ABBA/ABBA/CDE/CDE; com versos decassílabos. A sonoridade varia entre sons de /r/, /v/, /f/, /t/ e /p/, que podem assemelhar-se tanto ao som de pedras batendo umas nas outras, quanto ao som de flatulências. O rebaixamento do objeto amoroso se dá na conclusão do soneto, gerando uma quebra de expectativa tendo em vista as metáforas e a forma soneto, que são do âmbito da poesia elevada. O jocoso já seria do âmbito oral, baixo, e, acrescentando o que Eliane Robert Moraes diz sobre o espelhamento entre as pedras e o excremento, pela “dicção elevada do petrarquismo barroco, pródigo em imagens visuais, se vê subitamente ameaçada pela “porcaria” nua e crua que irrompe no fim do soneto, depreciando a exuberante grandiloquência amorosa do início.” (MOARES p.24).

O homem mais a mulher

Mote
O cono é fortaleza,
O caralho é capitão,
Os culhões são bombardeiros,
O pentelho é o murrão.

Décimas

1
O homem mais a mulher
guerra entre si publicaram,
porque depois que pecaram,
um a outro se malquer:
e como é de fraco ser
a mulher por natureza,
por sair bem desta empresa,
disse que donde em rigor
o caralho é batedor,
O cono a fortaleza.
2
Neste Forte recolhidos
há mil soldados armados,
à Custa de amor soldados,
e à força de amor rendidos:
soldados tão escolhidos,
que o general disse então,
de membros de opinião,
que assistem com tanto abono
na fortaleza do cono,
O caralho é capitão.
3
Aquartelaran-se então
com seu capitão caralho
todos no quartel do alho
guarita do cricalhão:
e porque na ocasião
haviam de ir por primeiros,
além dos arcabuzeiros
os bombardeiros, se disse,
de que serve esta parvoíce?
Os culhões são bombardeiros.
4
Marchando por um atalho
este exército das picas,
toda a campanha das cricas
se descobriu de um carvalho:
quando o capitão caralho
mandou disparar então
ao bombardeiro culhão,
que se achou sem bota-fogo,
porém gritou-se-lhe logo,
O pentelho é o murrão.

A glosa é feita em décimas redondilhas com as rimas ABBAACCDDC, muito usada em repentes no nordeste brasileiro. A “mote e glosa” segue o modelo medieval, e o poeta desenvolvia seu poema de acordo com o mote em quadrinha. Essa forma fazia parte de jograis que ocorriam em Salvador entre 1680 e 1700. Seguindo a tradição oral, as alusões entre figura metafórica (“fortaleza”, “capitão”, “bombardeiros”, “murrão”) é explícita ao seu referente (“cono”, “caralho”, “culhões”, “pentelho”). Mas no todo essas figuras formam uma rede metafórica bélica que, além de representar o ato sexual como uma batalha, amplia para as relações interpessoais patriarcal; a mulher, sendo a que se recusa ao sexo, precisa ter seu corpo vencido pelo homem.

Vê-se que os dois poemas tratam de temas tidos como baixos, mas que não deixam de ter valor literário. Por motivos de censura ou desprezo pela obra satírica, maledicente e erótica, esses poemas foram publicados muito depois, e ainda tendem a ser valorados como uma obra menor em relação à obra lírica. O resgate dessa poesia é importante para podermos pensar o Brasil do século XVII, o barroco brasileiro e a nossa tradição literária – que é ligada à nacionalidade, já que temos a mistura das formas europeias academicamente aceitas com as populares/regionais.

Por fim, não se pode pensar o barroco brasileiro como um escola literária com características mais ou menos fixas por vários motivos: a nomenclatura e a atribuição de características às letras e artes plásticas sobre o período é posterior e, portanto, permeada de novos valores, no caso os românticos. Dito isso, a questão de autoria não se aplica à obra atribuída a Gregório de Matos, pois seria impossível chegar à obra original através de valores atribuídos a ele pelos códices.


Bibliografia

HANSEN, João Adolfo. Barroco, Neobarroco e Outras Ruínas. Revista Floema Especial - Ano II, n. 2 A, p. 15-84 out. 2006

MORAES, Eliane Robert (Org.). Antologia da poesia erótica brasileira. Cotia/SP: Ateliê Editorial, 2015

Você pode adquirir a obra atribuída a Gregório de Matos aqui, numa série com cinco volumes.

Juliet Rodrigues

Reticências, interrogações e gestos afobados.