Comentários sobre Memórias Póstumas de Brás Cubas

Comentários Jun 10, 2020

O escritor alemão Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832) defendia uma literatura universal¹, em oposição aos ideais do romantismo nacionalista, movimento do qual fez parte e abandonou na velhice. O conceito abrange as literaturas de diversas culturas, num reconhecimento de suas especificidades locais, mas com aquilo que chamamos comumente de essência humana.

Enquanto país da periferia do capitalismo², temos uma grande valorização da literatura estrangeira, mas nossos "clássicos" acabam por não ultrapassar o espaço escolar, numa abordagem árida e cartilhesca. Não é incomum ouvir de colegas de Letras relatos de "traumas" com algum livro nacional lido por obrigação e como isso impactou toda a visão sobre a literatura brasileira - para dar um exemplo de quem escolheu fazer um curso que lida o tempo todo com literatura brasileira.

Falar de literatura universal no Brasil tem suas especificidades. Mas e quando fazemos o movimento contrário ao que Goethe propunha? Nossos escritores figuram no cânone mundial tal como Goethe, Shakespeare, Dostoiévski e muitos outros? Um problema prático que impacta profundamente o trânsito de nossa literatura para além dos falantes de português são as (boas) traduções para o inglês (sim, já que é uma língua hegemônica de intercâmbio cultural).

Capa da tradução inglesa de Memórias Póstumas de Brás Cubas

Dia 02 de junho, o selo Penguin Classics publicou The Posthumous Memoirs of Brás Cubas, com a tradução de Flora Thomson-DeVeaux³. A edição física esgotou na Amazon norte-americana no mesmo dia. As noticias circularam e li em alguma delas que o brasileiro tem a sorte de poder ler a obra de Machado de Assis no original. Oras, não é que é verdade? Me espanto de perceber o óbvio. Sem ironia.

E se você chegou até aqui, deve ter percebido que eu não falei nada sobre o texto em si de Memórias Póstumas. E se você ainda for um dos raros leitores dos meus outros textos para este blog, deve ter estranhado a escolha de começar o texto com informações extra-texto. Neste parágrafo, eu me coloco abertamente, converso com o leitor e faço comentários metalinguísticos, me dando o direito de fazer pequenas brincadeiras com o estilo tão único, elegante e inimitável de Machado.

Para além dos elogios, há diversos estudos sobre o narrador de Machado, a ironia, o realismo não realista, a moral dúbia de seus personagens, questões formais e de conteúdo, se Capitu traiu ou não traiu o chato do Bentinho, etc... Mas para este texto eu só queria comentar de modo mais despretensioso uma obra-prima mundial que creio eu, deveria ter mais valor entre os leitores médio.

Este texto é para você que nunca leu ou tem "traumas" com a literatura de Machado de Assis. Memórias Póstumas de Brás Cubas pode ser um grande início. Esqueça por um momento os estudos escolares e a importância que laureia o autor. Você pode se espantar com o quão divertido pode ser a leitura.


  1. Para uma leitura mais aprofundada sobre o conceito de Literatura Universal de Goethe, indico a leitura do artigo Weltliteratur, um conceito transcultural, de Eloá Heise, para a Revista Brasileira de Literatura Comparada. Leia aqui.
  2. Schwarz, Roberto. Um mestre na periferia do capitalismo: Machado de Assis. Editora 34. Adquira o livro aqui.
  3. A tradutora escreveu um artigo sobre a tradução de The Posthumous Memoirs of Brás Cubas para a Revista Piauí. Leia aqui.

Há diversas edições de Memórias Póstumas de Brás Cubas, além de ser facilmente encontrada em Domínio Público. Indico: Editora Carambaia e Editora Penguin.

Juliet Rodrigues

Reticências, interrogações e gestos afobados.