O Fantástico em Murilo Rubião

Ensaios Abr 30, 2020

Murilo Rubião (1916 - 1991), nasceu em Carmo de Minas (MG), se formou em direito na Universidade de Minas Gerais, onde fundou a revista literária Tentativa. Tomou contato com a literatura através da biblioteca da família (seu avô Francisco Alves de Barros Rubião era escritor memorialista e seu pai, Eugênio Álvares Rubião, era filólogo e poeta, membro da Academia Mineira de Letras). Sua maior influência foi Machado de Assis, especialmente Memórias Póstumas de Brás Cubas. Escreveu seu primeiro conto aos 19 anos, mas só publica seu primeiro livro, O ex-mágico, em 1947. Ao longo de sua carreira, exerceu a reescrita da maioria de seus contos, e a cada novo lançamento, mesclava contos inéditos e reescritos.

Dedicou-se integralmente ao conto fantástico, antes mesmo do boom latino-americano que chamamos Realismo Mágico. Mas antes de entrar na obra de Rubião, é preciso especificar o quê estamos chamando de conto fantástico.

O crítico Tzvetan Todorov, em Introdução à Literatura Fantástica, distingue as histórias que se utilizam do maravilhoso das que se utilizam do fantástico: o maravilhoso se passa num universo onde os elementos mágicos estão de acordo com as regras deste universo; por exemplo, os chamados contos de fadas e a literatura high fantasy. No fantástico, os elementos mágicos estão em desacordo com o universo, causando estranhamento das personagens ou do leitor; por exemplo em A Metamorfose, de Franz Kafka. Nas histórias fantásticas ainda há espaço para dúvidas em relação àquele evento: Qual a sua causa? Seria imaginação das personagens? Uma alucinação? Sonho? As causas e consequências dos elementos mágicos no gênero fantástico deixam as possibilidades de interpretação abertas.

Vejamos um trecho do conto O Ex-mágico da Taberna Minhota.

Um dia dei com os meus cabelos ligeiramente grisalhos, no espelho da Taberna Minhota. A descoberta não me espantou e tampouco me surpreendi ao retirar do bolso o dono do restaurante. Ele sim, perplexo, me perguntou como podia ter feito aquilo.
O que poderia responder, nessa situação, uma pessoa que não encontrava a menor explicação para sua presença no mundo? Disse-lhe que estava cansado. Nascera cansado e entediado.

No primeiro parágrafo, sabemos que o protagonista se porta de maneira desencantada diante de dois fatos: o de se ver diante do espelho e ao retirar do bolso o dono do restaurante. O primeiro fato é banal, não deveria causar espanto em ninguém. Porém, dizer que a descoberta não espanta o protagonista nos faz questionar se haveria algo de estranho. Uma frase cotidiana como "um dia dei com os meus cabelos ligeiramente grisalhos, no espelho..." começa a nos parecer estranha se lermos ao pé da letra. "Um dia" é vago demais. A marcação de tempo transcorrido também está nos cabelos grisalhos do protagonista, mas a frase dá a impressão de não ter um tempo transcorrido antes deste momento em frente ao espelho. É como se o personagem simplesmente tivesse aparecido ali naquele exato momento.

O segundo fato é claramente um motivo para espanto. Embora pudéssemos interpretar a primeira frase como um elemento mágico, uma aparição, há algo de corriqueiro que demonstra que a vida pregressa do protagonista teria sido um borrão, portanto não memorável; interpretação esta perfeitamente plausível. Já tirar o dono da taberna do bolso não deixa espaço para interpretações metafóricas. É um elemento mágico, sem dúvida. O interessante desse fato no conto é que o elemento que deveria gerar espanto não o gera. E nós, leitores, começamos todo um processo de estranhamento perante esse protagonista que, quando questionado como tinha feito aquilo responde "estou cansado".

Sigmund Freud cria um conceito chamado Unheimlich. Em português, pode ser traduzido como estranho, inquietante, estranhamento familiar... A palavra foi tirada do conto de E.T.A. Hoffman, Der unheimliche Gast, e porta em seu núcleo a palavra heim que significa "lar", mas pode ser também "familiar". Un- é um prefixo de negação. Então seria algo não-familiar, estranho, mas que porta dentro de si o familiar e vice-e-versa. O unheimlich freudiano é algo que gera mal-estar. Seguindo a leitura de O Ex-mágico, diversos outros elementos mágicos vão acontecendo num contexto absolutamente cotidiano, e o protagonista reage a eles de maneira tão desencantada que o nosso espanto é deslocado. O nosso mal-estar não é em saber que o protagonista consegue transformar cadarços em serpentes, é ele agir com fastio perante sua mágica incontrolável a tal ponto de tentar amputar as mãos.

Um acontecimento absurdo se sucede a outro e, de repente, estamos num contexto absolutamente cotidiano, prosaico, familiar, com um gosto amargo na boca que nos deixa inquietos.


Bibliografia:

FREUD, Sigmund. "O Inquietante". Obras Completas Volume 14. São Paulo: Companhia das Letras, 2010. Você pode adquirir a obra aqui.

RUBIÃO, Murilo. Obras completas. São Paulo: Companhia das Letras, 2016. Você pode adquirir a obra aqui.

TODOROV, Tzvetan. Introdução à literatura fantástica. São Paulo: Perspectiva, 1992. Você pode adquirir a obra aqui.

Juliet Rodrigues

Reticências, interrogações e gestos afobados.