O Morro dos Ventos Uivantes: Uma história sobre ressentimento de classe

Ensaios Fev 26, 2020

Este texto contém spoilers.

O Morro dos Ventos Uivantes foi lançado em 1847, portanto, há diversas edições em português da obra no mercado. A edição que chegou até mim é a que a editora Leya (por meio do selo Lua de Papel) lançou em 2009 devido à relação que as personagens da série Crepúsculo - então um fenômeno de vendas - têm com a obra de Emily Brontë. Dito isso, a capa, a orelha e a sinopse trabalham em função dessa relação com a série de Stephenie Meyer, trazendo o subtítulo "O amor nunca morre!" e categorizando a obra como literatura juvenil no catálogo sistemático. Comecei a ler O Morro do Ventos Uivantes por indicação e eu sabia mais ou menos sobre a história do romance, portanto eu desconfiava que a obra não se tratava de “uma surpreendente história de amor”, como esta edição faz crer. A trajetória de Cathy e Heathcliff tem muito mais implicações complexas que simplesmente ser uma "história de amor".

Primeiramente, Cathy e Heathcliff não realizam esse amor. Cathy morre na metade do romance e a outra metade trata da segunda geração dos personagens, que sofrem por consequência da vingança que Heathcliff pratica. Então, tratar a obra como uma história de amor só dá conta de metade dela. E esse amor, o que teria de surpreendente? Os infortúnios sofrido pelos dois nada tem a ver com destino como diz a sinopse desta edição. Cathy escolhe não se casar com Heathcliff , que por sua vez, escolhe seduzir a cunhada dela, fugindo e deixando Cathy doente, à beira da morte. Quando Heathcliff descobre que Cathy morreu, ele não deseja que ela descanse em paz, quer que ela o assombre, e é isso que seu fantasma faz, profundamente infeliz. Umas das cenas mais icônicas do romance - contidos na letra da canção de Kate Bush - descreve a impossibilidade do fantasma de Cathy entrar na própria casa, simbolizando a agonia após sua morte.

Já Heathcliff só sente prazer na complexa vingança que articula contra todos que lhe fizeram mal, incluindo os descendentes e seu próprio filho, mas até suas artimanhas vingativas deixam de lhe trazer algum conforto e ele acaba definhando de um jeito parecido como Cathy definhou.

Ambos os protagonistas são teimosos, orgulhosos e caprichosos, e depois da morte de Cathy, Heathcliff fica obsessivo e extremamente violento e cruel. Eles querem ficar juntos, se amam de fato, mas só tomam atitudes que levam ao afastamento um do outro, às brigas e por fim à morte. Eles só conseguem ficar juntos depois de mortos - e num sentido físico e espiritual. Essa sequência de decisões contraditórias tem início na escolha de Cathy para matrimônio: ela escolhe Edgar Linton, o vizinho, porque ela tem a sensação de que acabaria pedindo esmola caso se casasse com Heathcliff . Temos aqui uma questão de diferenças de classes e o papel da mulher na Inglaterra do século XIX. O casamento com Linton é de longe mais vantajoso: Linton é o herdeiro da Granja dos Toldos e tem educação refinada; Heathcliff é um cigano sem nome. Não é apenas vantajoso, mas a escolha sensata. Isso fica claro quando Cathy volta da Granja dos Toldos com um vestido de seda novo e mal cumprimenta Heathcliff porque ele estava sujo. A partir desse momento, os dois, que eram tão próximos, se afastam até culminar na fuga de Heathcliff depois de ouvir que Cathy se casaria com Linton. Quando ele volta, dois anos depois, com uma fortuna, já não há a possibilidade deles ficarem juntos, nem como amigos, já que Linton não o quer em sua casa, independente dos caprichos de Cathy. Heathcliff aproveita as poucas vezes que foi aceito na casa para seduzir a irmã de Linton, que acaba se apaixonando por ele. Num acesso de ciúmes e fúria, fingido de início quando simula um desmaio, Cathy jejua e dorme mal por três dias depois que Heathcliff foge com a cunhada. Depois se sabe que Cathy estava grávida, e nunca mais se recuperou da “febre cerebral” que a acometeu e acaba morrendo ao dar a luz.

A vingança de Heathcliff é imediatamente contra seus opressores: Hindley Earnshaw, Edgar Linton e a própria Cathy. Earnshaw, herdeiro d'O Morro dos Ventos Uivantes, maltratava Heathcliff na infância; Edgar casou com a mulher que amava e possuía prestigio social, posição que Heathcliff não possuía nem depois de ficar rico; e Cathy o preteriu ao conforto social e material. Claro que neste último caso, sua vingança é ambígua e Heathcliff assume muitas vezes um sentimento de culpa em relação à amada. Quando a vingança se estende aos descendentes, as motivações se complexificam: Catherine é filha de Cathy e Edgar Linton, logo, merece sofrer para que seu pai também sofra, mas a garota também é arrogante como a mãe e goza dos privilégios que Heathcliff nunca teve; o filho de Heathcliff com Isabella Linton, Linton Heathcliff (sim, as repetições dos nomes são propositais) é o oposto do pai -  enfermo, efeminado e manhoso -, e consequentemente, o que um menino deveria ser segundo os padrões de masculinidade do pai; e Harenton Earnshaw, filho de Hindley Earnshaw, que assim como a relação de vingança com Cathy, possui ambiguidade, sendo ele muito parecido com Heathcliff e tendo desenvolvido uma relação que se aproxima de um afeto paterno, já que seu pai o negligenciava. A repetição dos nomes mostra como a imagem dos filhos se confundem com seus progenitores.

Heathcliff tem êxito em praticamente todos os aspectos da vingança. Consegue as propriedades d'O Morro dos Ventos Uivantes, e mediante o casamento forçado de Catherine com seu filho, a Granja dos Tordos. Hindley morre na ruína. Edgar Linton morre depois de sua filha ficar encarcerada e ser obrigada a se casar. Linton morre pouco tempo depois do casamento, doente e neglicenciado. Catherine é obrigada a viver reclusa, sem conforto, sendo humilhada e agredida. Harenton se torna um rapaz sem educação e trabalhando como criado na propriedade que deveria ter herdado.

Catherine e Hareton, incluse são espelhados em Cathy e Heathcliff . Além das semelhanças de temperamento e físicas, há uma inversão na trajetória das duas gerações, como se a autora demonstrasse um caminho menos destrutivo que unisse pessoas de estratos sociais diferentes: a cultura e a educação. Catherine e Harenton não se unem para se revoltarem contra a tirania de Heathcliff (inclusive porque Hareton, mesmo discordando dele, o vê como figura paterna), mas é através dos livros e dos ensinos de leitura que Catherine oferece a Hareton.

O que me parece um pouco frágil na obra é mostrar que a educação e a cultura (aliadas a uma boa vontade) podem superar preconceitos de classe. isso pode valer para Catherine e Harenton porque naquele momento, ambos estavam destituídos de seus privilégios. No caso de Cathy e Heathcliff, ela estava fadada à escolha que fez, e ele estava fadado a ser visto sempre como um cigano. A educação e a cultura não resolveria a tensão entre eles.

Claro que o que eu estou julgando como fragilidade da obra pode ser apenas uma leitura minha que ainda não deu conta desse aspecto, já que as personagens são todas muito complexas e tridimensionais. Mas leio a obra muito mais como um romance sobre diferenças de classes, papeis sociais e menos sobre relacionamento tóxico - embora tenha sim muito desse aspecto. Definitivamente não é uma obra que traz um modelo romântico-amoroso. De todo modo, dá pra entender a complexidade dessa obra e a injustiça que esta edição faz dela. Ao menos podemos dizer que a série Crepúsculo fez com que muitos jovens lessem um livro de qualidade e complexidade que, espero, os leitores tenham aproveitado.


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Juliet Rodrigues

Reticências, interrogações e gestos afobados.