Os Afogados e Os Sobreviventes (Primo Levi)

Comentários Mar 20, 2020

Já nas primeiras linhas da obra Os Afogados e Os Sobreviventes, Primo Levi menciona a intenção dos nazistas de apagar a história dos campos de concentração porque, quando ganhassem a guerra, tornar-se-iam os “donos da verdade” e que, mesmo que alguma das vítimas sobrevivesse, ninguém acreditaria nela porque “os fatos narrados são tão monstruosos que não merecem confiança.” (p. 9) O autor também menciona um sonho recorrente, que consistia em retornar ao lar, relatar a um ente querido o que aconteceu e ver esta pessoa ir embora sem ouvir. Tal sonho também se apresentava em outras vítimas. Utilizamos esses dois elementos como introdução pois serão alguns dos que analisaremos neste ensaio, tendo em vista a obra citada de Primo Levi.

Diz-se que os vencedores são os que contam a história. Em muitas instâncias, em períodos em que houve violência de um grupo contra o outro, não vemos ser contado o lado dos massacrados ou escravizados. Pode-se apresentar diversos exemplos disto, como o extermínio dos nativo americanos pelos brancos europeus e, um mencionado pelo próprio Levi em seu texto, o genocídio dos armênios pelos turcos no início do século XX, algo que apenas recentemente foi visto pelo o que foi pelos governos ao redor do mundo. Por muitos anos não foi ouvido o lado dos que perderam, seja porque os vencedores ocultaram a verdade, seja porque não houve sobreviventes dispostos a relatar o acontecido. Durante o século XX, no entanto, isto mudou. Foi um século em que a literatura de testemunho foi popular, especialmente entre as minorias que foram  massacradas pelos nazistas. Deste grupo, Primo Levi é considerado o primeiro autor a trazer à luz suas experiências em escrito, com o livro É Isso um Homem?, publicado pela primeira vez em 1947. Dele se seguiram vários outros trabalhos memorialísticos, incluindo outros do mesmo autor. Este é um fato importante, pois se trata de um movimento a resgatar uma história que poderia nunca ter sido contada se a guerra tivesse tomado outro rumo.

Estes trabalhos memorialísticos têm facetas diversas: não são apenas relatos sobre o que aconteceu nos campos de concentração, são também uma tentativa de compreender o acontecido, de superá-lo. São um testemunho, uma denúncia para o resto do mundo, marcas para a posteridade para que isso não ocorra outra vez. É também, e talvez especialmente, um meio de tomar a verdade para si, de se tornar dono desta verdade que os nazistas tanto se esforçaram para ocultar. Esses testemunhos tomam, de certa forma, o papel de um historiador, pois é o papel dele relatar a verdade, e, idealmente, sem ocultar nenhuma parte dela. É importante notar que há uma diferença entre os testemunhos e o historiador: o historiador deve ser imparcial, enquanto os testemunhos não o são. Os testemunhos têm um caráter denunciador – e devem tê-lo, pois se tratam de minorias tomando a palavra para si, e não há modo de ser ouvido que não seja desta maneira.

Mencionamos no início o sonho recorrente que Primo Levi relata ter tido durante seu tempo em Auschwitz. As memórias escritas pelos sobreviventes são essa tentativa de relatar aos entes queridos o acontecido, uma tentativa que teria o mesmo final que o sonho se os nazistas tivessem conseguido manter o poder. O sonho também mostra outra possível situação: a da não existência de comunicação, seja por dificuldade do ouvinte de acreditar no que é dito – afinal, é algo monstruoso – ou também por dificuldade do falante de se expressar. Viveram o que querem narrar, aquilo não sai de sua cabeça, mas como dizer, como escrever?

Muitos destes sobreviventes, relata Primo Levi, foram extirpados de sua linguagem durante o período nos campos de concentração. Trata-se especialmente de prisioneiros estrangeiros, como ele próprio, que não sabiam o alemão. Os campos tinham uma linguagem própria, e ela muitas vezes não coincidia nem mesmo com o alemão falado pelo resto do povo, era mais duro, mais sucinto. Era uma língua para se comunicar com seres que não eram mais pessoas, uma língua falada de duas maneiras, com palavras e o punho. Diz Levi:

“Se alguém hesitava (hesitavam todos, porque não compreendiam e estavam aterrorizados, vinham os golpes, e era evidente que se tratava de uma variante da mesma linguagem: o uso da palavra para se comunicar o pensamento, este mecanismo necessário e suficiente para que o homem seja homem, tinha caducado. Era um sinal: para eles, não éramos mais homens, conosco, como com vacas ou mulas, não havia diferença substancial entre um berro e um murro.” (p. 80-81)

O capítulo do qual o trecho é extraído é uma crítica ao conceito de incomunicabilidade, e começa analisando situações em que o conceito se aplicaria mas acaba não existindo de fato. Colocamos aqui uma adição e um contraponto: a dificuldade de comunicação, seja ela entre o sobrevivente e um ente querido, seja ela entre o sobrevivente e o papel, existe. Existe porque depois da saída do campo de concentração, o sobrevivente precisa passar pelo processo de se tornar um humano outra vez, e, se for estrangeiro, recuperar sua linguagem. Há o desejo de comunicar, o que faz com que o conceito de “incomunicabilidade” não se aplique totalmente, tendo em vista o dito por Levi, mas há uma falta de palavras. Sobreviventes e exilados que foram para outros países, antes ou depois da guerra, acabam por quase sempre adotarem apenas sua “língua-pátria”, sua língua nativa, para escrever, não porque não há desejo de se comunicar no outro idioma, mas porque há a falta de palavras, porque a mente pode não conseguir processar o acontecido de outra maneira.

Algo que não acontece, no entanto, é a falha da memória. Assim como a tatuagem que receberam para identificação, as memórias são marcas. Então a tentativa de escrevê-las é também, como já mencionado, para entendê-las. Mais do que isso, é um processo que Adorno descreve como “Aufarbeitung”, conceito que, na tradução de seu texto para o português, foi traduzido como “elaboração”, mas que significa muito mais do que isto. Nesse texto, “O Que Significa Elaborar O Passado” (Educação e Emancipação, Paz e Terra, 2003), Adorno fala sobre como a lembrança do nazismo afeta a Alemanha de sua época. Aí o termo “elaboração” (Aufarbeitung) significa também um estudo, um esclarecimento, uma tentativa de compreensão. Num texto homônimo (Lembrar, Escrever, Esquecer, Editora 34, 2006), Jeanne Marie Gagnebin explora a ideia de esclarecimento, tendo em vista o texto de Adorno:

“Não se trata de lembrar o passado, de torná-lo presente na  memória para permanecer no registro da queixa, da acusação, da recriminação. O filho que recrimina o pai coloca-se a si mesmo, desde o início, numa posição superior, de juiz, e o outro, na de réu; assim, ele se poupa um esforço doloroso de explicitação ou de esclarecimento — Aufklarung — a respeito do passado, esforço que deve se transformar num gesto de explicitação, igualmente, a respeito do próprio presente, do presente do filho.” (p. 92)

Em Os Afogados e Os Sobreviventes, Primo Levi não se utiliza das palavras para recriminar as autoridades dos campos de concentração. Ele também busca entendê-los, explicar a posição de prisioneiros privilegiados que viviam numa “zona cinzenta” nos campos. Entre estes prisioneiros, menciona os kapos: chefes das brigadas de trabalho e alojamento, escriturários e prisioneiros que desempenhavam outras funções. Menciona como três destes mais tarde se tornaram historiadores dos campos, por terem tido acesso aos documentos da SS. Levi insiste em abandonar a ideia de “nós e eles”, o que chama de simplificação dos fatos, especialmente por parte de quem lê a respeito dos acontecimentos nos campos de concentração. “Em quem lê (ou escreve) hoje a história dos Lager, é evidente a tendência, ou melhor, a necessidade de dividir o bem e o mal, de poder assumir um lado, de repetir o gesto de Cristo no Juízo Universal: aqui os justos, lá os réprobos.” (p. 32) O que ele faz, em vez disso, é apresentar-nos a essa zona cinzenta e mostrar como a dicotomia “vítima e torturador” é errônea neste caso. Não culpa estes prisioneiros pelo o que fizeram em sua condição de privilegiados, mas sim o sistema, pois dentro dos campos de concentração, a organização era quase a de um Estado totalitário. “Mas esse quase é importante: jamais existiu um Estado que fosse realmente “totalitário” sob esse aspecto. (…) sempre serviram como freio, em maior ou menor medida, a opinião pública, a magistratura, a imprensa estrangeira, as Igrejas, o sentimento de humanidade e justiça que dez ou vinte anos de tirania não conseguem eliminar. Só dentro do Lager o controle a partir de baixo era nulo, e o poder dos pequenos sátrapas era absoluto.” (p. 40)

A simplificação de “bem e mal”, “nós e eles”, “vítima e torturador” que é geralmente vista pelos leitores ou ouvintes dos testemunhos, se estende a outra ideia errônea que estes interlocutores têm a respeito dos prisioneiros: os esteriótipos. Uma das razões para os sobreviventes falarem é porque são convidados a fazerem. Nestas conversas, há duas perguntas que sempre são feitas: “por que não fugiram?” e “por que não se rebelaram?”. Levi explica que, mesmo que houvesse maneira de fugir ou vencer numa rebelião, não havia lugar de refúgio, especialmente entre os prisioneiros judeus:

“[Eles] estavam fora do mundo, homens e mulheres de vento. Não mais tinham uma pátria (haviam sido privados da cidadania de origem) nem uma casa, desapropriada em favor dos cidadãos a título pleno. (…) A propaganda antissemita de Goebbels e Streicher dera frutos: a maior parte dos alemães, especialmente os jovens, odiava os judeus, desprezava-os e considerava-os inimigos do povo; os outros, com pouquíssimas e heroicas exceções, se abstinham de qualquer ajuda por medo da Gestapo.” (p. 131)

Temos aí uma situação de quem é “dono da verdade”, como os nazistas diziam aos prisioneiros. A propaganda tinha efeito, e se um fugitivo quisesse contar a um cidadão sobre o acontecido, ele provavelmente faria o gesto de se levantar e ir embora. Havia muitos outros obstáculos para a fuga, é claro, mas o fato de não se ter uma voz é definitivamente um.

A literatura de testemunho teve um papel trágico no século XX, mas um igualmente importante para a história. Ela mostrou uma verdade que tinha a pretensão de ser enterrada, e ajudou a iluminá-la, a tentar compreendê-la – mesmo que compreensão possa ser falha, a diferença entre “violência útil” e “violência inútil” – além de ser uma vitória por si só, já que deu voz a uma minoria que a havia perdido. Mas ainda, depois disso, ela também nos serve como um lembrete, um aviso de que isso, mesmo nos dias de hoje, pode acontecer de novo.

Daniela Moraes

Escritora. Literata. Lobisomem.