Pílulas Azuis - Um comentário/resenha

Comentários Abr 06, 2020

“Na trilogia Matrix, a pílula azul representava a fuga para a vida ilusória. Nesta magnífica HQ do suíço Frederick Peeters, ela é a garantia que a realidade continua. Sempre cercada de incerteza, medo, desejo, dor, angústia, alegria, fé, compaixão e, principalmente, amor.” Sidney Gusman.

Pílulas Azuis é uma HQ autobiográfica escrita e desenhada por Frederick Peeters em 2001 e publicada aqui no Brasil em 2015 pela editora Nemo. A história se concentra em um período da vida do autor quando ele se apaixona e dá início a um relacionamento singular. Caso ainda não conheça este trabalho, e pretenda desfrutá-lo ao máximo, talvez deva voltar a esta resenha depois, pois spoilers aqui serão imprescindíveis para algumas reflexões.

Como todo romance, este possui uma série de desafios, sendo o primeiro deles o fato dela já ser mãe de uma criança e o protagonista pouco experiente nesse aspecto. À medida em que a relação vai se intensificando, o contato com o menino vai se tornando cada vez mais frequente, produzindo um laço forte e muito bonito. Ainda que o produto seja um homem verdadeiramente afeiçoado a criança, é inegável a existência de um preconceito milenar que cruelmente cria um obstáculo em um primeiro contato.

Mães solteiras, especialmente em um país subdesenvolvido como o Brasil, possuem em sua maioria uma vida muito difícil (a quantidade de mães solteiras em regiões periféricas é 3,5x maior que em outras – IBOPE, 2013). Famílias de mãe solo são em geral mais pobres (IBGE, 2017) e esta realidade, lares chefiados por mulheres, vem crescendo consideravelmente nas últimas décadas (IPEA, 2017). Não obstante a todas essas adversidades, há o preconceito citado que resulta em uma repulsa masculina por se envolver. Ora, se posso me relacionar com alguém sem filhos, por que fazer o oposto? Sorte do protagonista, que se permitiu amar e ser amado, não só por um, mas por dois.

Além disso, há uma segunda característica muito impactante a esta relação, tanto ela quanto o filho são portadores de HIV. Me arrisco a dizer que essa talvez seja ainda mais importante à história, trazendo especificidade a enriquecedora jornada do protagonista. Incialmente, logo após tomar conhecimento, Frederick reage tranquilamente e de forma serena diz a ela que está tudo bem, mas a HQ não nos exime do turbilhão que estão seus pensamentos. Ainda assim ele decide embarcar, e desta vez, sorte a nossa.

Sua leitura foi uma experiência das mais agregadoras possíveis para mim, particularmente por sua face informativa, uma vez que nunca tive contato com soropositivos ao HIV e pouco estudei sobre o tema. O impacto da quebra de preconceitos (consequência de pura ignorância) foi grande, e conforme o protagonista vai se expondo ao cotidiano de dois portadores, vai descobrindo como o avanço farmacêutico, propicia uma qualidade de vida muito superior a esperada a estas pessoas. Ainda que uma cura nao tenha sido descoberta, AIDS não é mais a sentença de morte que se difundiu nos anos 80 e 90. O que, claro, não vai isentar a história de momentos de medo e insegurança após atos sexuais, ou possíveis recaídas de algum dos dois, acarretando tensão ao jovem e a nós, que por ventura venhamos a esquecer da condição de saúde deles. Pílulas Azuis é uma daquelas obras especiais que fica em você, que faz pensar, que te agrega.

É sempre válido o exercício de transpor trabalhos como este a nossa realidade, que nunca é idêntica, mas nos permite diversos retratos. Por que não olhar para a todos que possuem condições de saúde que não se resolvem em poucos dias de outra forma? Já há dificuldade demais em suas rotinas e relacionamentos afetados por questões que passam longe de escolha, culpa ou responsabilidade. Doença alguma deve definir quem você é. Não me refiro exclusivamente a soropositivos ao HIV, vocês sabem. Sobre nossos próprios relacionamentos, entrar em contato com histórias verídicas como esta nos mostra que os problemas não são assim tão grandes, e os obstáculos longes de insuperáveis.

As experiências de Frederick compiladas nesse gibi informam, emocionam e ensinam. Sempre flertando com os sentimentos mais humanos, a obra toca em assuntos muito sensíveis e relevantes, incrementando esta autobiografia com algo a importante a dizer. Não é difícil entender o porquê de tantos prêmios e posições logradas em listas de melhores do ano mundo a fora. Com traço irreverente e despropositado, permite as mais “viajadas” reflexões (mamute!), com roteiro redondo e pessoal, nos toca como raramente acontece.

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Pílulas Azuis, editora Nemo:

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