Watchmen

Resenhas Mar 02, 2020

Quis custodiet ipsos custodes?

Watchmen é uma HQ roteirizada por Alan Moore, ilustrada por Dave Gibbons e publicada originalmente em 1986 pela DC Comics. Por muitos dita como a maior obra da nona arte e convenhamos que razões não faltam para tal.

A história se passa em uma realidade alternativa onde o surgimento de um super herói mudou o curso não somente da guerra do Vietnã, mas também do mundo. Os impactos partem desde o desinteresse da população por quadrinhos de super heróis, uma vez que há um deles no mundo real, até o desenvolvimento tecnológico apressado que este ser sobre-humano trouxe à sociedade.

A narrativa se desenvolve sob um clima de mistério, pois a morte de um "herói" conhecido como Comediante desperta suspeitas em outro mascarado, Rorschach, que acredita haver uma espécie de assassino de heróis por trás de tudo. É importante frisar que a guerra acabou há algumas décadas, com vitória norte americana, e por conta do comportamento duvidoso de parte deste grupo de personagens após seu retorno aos Estados Unidos, a vigilância foi considerada ilegal e, portanto, proibida. Quem se mantém na ativa é o próprio Rorschach, na surdina e vivendo de forma indigente, e Dr. Manhattan, o então super herói que habita uma base militar como pesquisador.

Um primeiro elemento que contribui para o envolvimento do leitor com esta narrativa são os personagens, que sob as mãos do autor se distanciam muito do super herói clássico. Aqui eles possuem defeitos, por diversas vezes maiores que suas próprias qualidades, humanizando-os consideravelmente. (Curioso ver o tom sombrio desta HQ se tornar um padrão dentro do universo regular da editora por tantos anos, sempre me pareceu uma consequência imprevista e até indesejada para Alan Moore quando a concebeu). Não obstante, a maturidade dos temas abordados também contribuiu para que se distanciasse do que se produzia na época e país, notamos isso não só pelas muitas formas de violência presentes, mas também pelas próprias referências e que a obra possui, e reflexoes que propões. Há de tudo aqui: de Nietzsche e Einstein a Bob Dylan; reflexões sobre mortalidade, tempo e fé com Dr. Manhattan; moralidade com o Comediante; carreira, abstenção e felicidade através do Coruja e os diversos impactos a psique de vítimas de crimes bárbaros como os vividos pela Espectral. Toda esta complexidade impressiona e choca mesmo o leitor mais desprendido.

Para os que não estão acostumados a quadrinhos, há elementos a se atentar que fundamentam a escolha pelo meio em que esta história está sendo contada, momentos esses que sempre dificultam a adaptação desta obra a outras mídias, como quando o Coruja “sai” de dentro de Dan Dreiberg, ou mesmo a simetria presente no capitulo cinco (fica lançado o desafio de identificá-la!). Perceba então as diversas possibilidades e recursos que o mix de textos e imagens, caracteristicos a uma história em quadrinhos, oferece.

Tratando especificamente do autor, há personagens coadjuvantes nesta história que, após toda leitura, me levavam a pensamentos curiosos. Quando lido pela primeira vez você inevitavelmente irá se questionar a respeito, por exemplo, da presença de um jornaleiro na história. Por que está me mostrando isso? Onde quer chegar com este personagem? A resposta que me satisfez, discutindo e lendo opiniões de outros leitores, passa longe de pura prolixidade: a justificativa para este comportamento reside na pessoalidade. Alerta para de spoilers, lamento. Em um dado momento haverá uma ameaça de destruição em massa e, bem, o autor poderia optar em dizer que apresenta risco a 100 mil, um milhão ou mesmo um bilhão de pessoas, mas honestamente, o quanto alguns zeros a mais incrementam teu sentimento de criticidade da situação? Sentimos mais quando há laço, e é desta forma, dedicando pequenos momentos a personagens pouco relevantes à narrativa principal, que Alan Moore e sua genialidade encontram uma forma de nos fazer doer pela tal grande catástrofe.

Por fim, é difícil não se admirar pelo desfecho, fundamental a qualquer história,  mas aind mais importante a todo bom mistério. Aqui você encontrará soluções lógicas que ludibriaram um homem-deus, além de uma boa dosagem de extravagancia que traz um contraste de certa forma cômico a obra.

Sobre suas adaptações e sequências, há uma versão cinematográfica dirigida por Zack Snyder que divide opiniões, mas vale a pena ser experimentada (divide com a gente lá no Instagram qual teu final preferido). Não deixe também de conferir a série de TV produzida pela HBO que continua a história da HQ, e também o confronto deste universo com o regular da DC nos quadrinhos em Doomsday Clock. Lembrando que nenhum deles possuiu qualquer envolvimento do autor, pois há muito se distanciou de seu mais lembrado trabalho.

Seguem abaixo, como de praxe, os links para caso se interesse pelo material, clicando você ajuda este conteúdo a chegar a mais pessoas.

Watchmen – Edição Definitiva, editora Panini:

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Watchmen Filme no Prime Video:

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Programa sobre Watchmen da editora Pipoca e Nanquim:

https://www.youtube.com/watch?v=VyVmyrr_R70